terça-feira, 17 de maio de 2016

Após a primeira grande dificuldade: o descanso

Se a primeira semana de Giro terminou com um surpreendente contrarrelógio de Mikel Landa, a segunda iniciou-se com o, muito menos surpreendente, abandono do mesmo Mikel Landa.

Desde a antevisão deste Giro (e de há algum tempo para cá) que foi referido o perigo que constituía cada dia de descanso e neste Giro era três. São dias muito perigosos dos quais há sempre alguém que sai muito doente no dia seguinte. Por isso, a pergunta estava lançada logo antes da partida:

A resposta foi a mais óbvia e também já tinha sido avançada tanto no Twitter quando na página do Facebook deste espaço que se dedica a estudar as bizarrices e churrascadas: Mikel Landa. O espanhol aproveitou o dia de descanso para se mostrar confiante e prometer ataques mas não foi assim que aconteceu e agora dirão que ficou doente. Como no inverno. E no anterior. É o que dá ter tantas horas para descansar. Ainda teremos mais 3 ou 4 anos de Landa para falar dele mas não será este Giro.

A primeira grande vítima deste Giro não resultada da montanha, nem do contrarrelógio, nem de uma queda, mas do primeiro dia de descanso a sério.

Esta era uma etapa muito difícil de controlar e por isso mesmo propícia para o sucesso de uma fuga, razões bastantes para que a Bardiani colocasse na fuga do dia três corredores, entre eles o seu mais cotado Stefano Pirazzi. Também lá estavam os experientes Giovanni Visconti e Damiano Cunego, dois possíveis candidatos à classificação da montanha, ainda que o ataque de Visconti também pudesse servir para auxiliar Valverde mais à frente.

Com a camisola rosa ameaçada por Pirazzi e Visconto, a Etixx fez o que podia para controlar a corrida com uma equipa mais virada para a preparação de sprinters, esperando que depois outra assumisse o comando na parte final. Foi a Astana quem o fez, com um ritmo alucinante de Tanel Kangert primeiro e Michele Scarponi depois. Seria para preparar um ataque de Vincenzo Nibali que acabou por não surgir. Ou porque Nibali achou que o grupo estava demasiado grande, ou porque achou que a última subida não era dura o suficiente (e não era), ou porque não estava tão bem quanto gostaria.

Gianluca Brambilla percebeu ainda longe do término da montanha que não iria manter a liderança da prova. Mas fruto de uma extraordinária descida (tal como no sábado e no domingo) conseguiu recolar e fez um enorme trabalho para o seu companheiro Bob Jungels. Mais do que os resultados, a coisa que mais prazer me dá ver no ciclismo (logo depois dos ciclistas que atacam) é isto, o espírito de união, sobretudo quando são ciclistas de créditos firmados a trabalhar para os seus companheiros e nesta coisa os holandeses e flamengos são os melhores.

À partida, a estratégia para a Etixx era simples: Brambilla e Jungels estavam igualados. Se Brambilla sofresse, Jungels não iria esperar, se a camisola rosa estivesse em risco, quem estivesse pior seria o sacrificado. A rosa estava em risco na última subida devido a Andrey Amador, calhou que quem estava pior era o maglia rosa e fez o fantástico trabalho que fez. Este espírito de união não foi construído da noite para o dia. É algo que se constrói diariamente e para o qual todos são fundamentais. Vimos no Tour do ano passado, por exemplo, Cavendish, Kwiatkowski e Tony Martin a trabalharem para companheiros quando a situação de corrida a isso obrigava e é por este espírito de união construído diariamente que cada um espera pela sua oportunidade de brilhar sem pisar o colega, sabendo que é preferível agir como uma equipa do que como uma boysband em que cada um procura sair o melhor possível na fotografia. Quer o líder da equipa seja Boonen, Martin, Kittel, Brambilla ou Jungels. Mas também tem muito mérito quem constrói a equipa e apenas recruta aqueles que se encaixam no perfil, sabendo que as lideranças se constroem, não se impõem, e por vezes é preferível um ciclista que debite menos watts mas tenha mais espírito de grupo.

A última subida acabou por se revelar inconsequente e os ataques de Ilnur Zakarin (com as respetivas respostas) mostraram que era uma subida que não dava para mais do que aquilo. Também inconsequente foi o ataque de Andrey Amador, que tentou obrigar a Astana a um desgaste suplementar, mas tal não foi necessário fruto do trabalho de Brambilla, que possibilitou a Bob Jungels vestir de rosa no final. O jovem de 23 anos tem sido um dos grandes destaques desde o primeiro dia, trabalhou para Kittel, tentou fechar o espaço para Ulissi na quarta etapa de modo a que Brambilla pudesse discutir o triunfo de etapa, é um excelente contrarrelogista e falta saber se evoluiu o suficiente na montanha para terminar no top-10.

A etapa foi para Giulo Ciccone, uma vitória sem qualquer desportivismo. Na última descida, quando seguiam Ciccone, Pirazzi e Cunego, Pirazzi teve uma trajetória errada numa curva que quase o levava ao chão e, para evitar a sua queda, quase provocou a de Cunego, que foi obrigado a travar e dessa situação resultou o isolamento de Ciccone. Vendo as imagens, acredito que não tenha sido intencional, mas sendo Ciccone e Pirazzi da mesma equipa - ou seja, quem provocou o incidente e quem saiu beneficiado - Ciccone deveria ter esperado. Mas Cunego tinha sido o melhor na contagem de montanha anterior e a Bardiani não quis arriscar a ser batida novamente no final.

Seguem-se duas etapas que em teoria não apresentam dificuldades para os homens da classificação geral, mas a de amanhã tem um final que requer muita atenção.

Classificação geral
1 Bob Jungels (Lux) Etixx - Quick-Step 40:19:52  
2 Andrey Amador (CRc) Movistar Team 0:00:26  
3 Alejandro Valverde (Spa) Movistar Team 0:00:50  
4 Steven Kruijswijk (Ned) Team LottoNl-Jumbo  
5 Vincenzo Nibali (Ita) Astana Pro Team 0:00:52  
6 Gianluca Brambilla (Ita) Etixx - Quick-Step 0:01:11  
7 Rafal Majka (Pol) Tinkoff Team 0:01:44  
8 Jakob Fuglsang (Den) Astana Pro Team 0:01:46  
9 Ilnur Zakarin (Rus) Team Katusha 0:02:08  
10 Esteban Chaves (Col) Orica-GreenEdge 0:02:26  
11 Domenico Pozzovivo (Ita) AG2R La Mondiale 0:02:27  
12 Diego Ulissi (Ita) Lampre - Merida 0:02:53  
13 Rigoberto Uran (Col) Cannondale Pro Cycling 0:02:55  
14 Ryder Hesjedal (Can) Trek-Segafredo 0:03:39  
15 Stefano Pirazzi (Ita) Bardiani CSF 0:04:10

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