quarta-feira, 11 de maio de 2016

Lotto-Soudal como forma ser e estar

O Giro chegou a Itália depois de uma grande festa na Holanda, e chegou com dois dias desta justiça poética que ocasionalmente bafeja o ciclismo para premiar as equipas que mais fazem por isso.

Ontem foi a vez da Lampre estar, no mínimo, em excelente nível. Na primeira etapa em que existiam hipóteses da fuga vingar, e reconhecendo precisamente isso, a equipa italiana colocou na frente Matej Mohoric, o jovem que ainda não conseguiu confirmar em elite o talento anunciado com os títulos mundiais de júnior e sub-23. Qualquer fuga poderia vingar e, para o caso de ser aquela, a Lampre lá colocou um ciclista.

Anulada a escapada, ainda com muitos quilómetros por percorrer, saltaram muitos homens, e entre eles Valerio Conti e Diego Ulissi. Como escrevi no Facebook (e aprendi que para alguns a Lampre tem que ser criticada por ser Lampre ou porque alguém lhes meteu na cabeça que tem que ser criticada), enquanto Conti podia, deu tudo o que tinha; quando não podia mais, Ulissi tomou a dianteira; quando Conti voltou a poder, voltou à frente; quando chegou a hora, Ulissi deu a sapatada. As restantes equipas deixaram todo o esforço entregue a esta que era a única equipa com mais do que um representante na frente e eles não se acomodaram nem olharam para trás a ver se vinha alguém ajudar. Pela atitude, chapeau!

Hoje foi dia de Lotto-Soudal, uma equipa que, por ser Lotto-Soudal, parece fazer tudo bem. Ou, pelo menos, como eu gosto. E, como mostram os resultados, também tem mesmo algo de bem feito.

Quem ataca pode perder, mas quem não ataca perde de certeza.

André Greipel perdeu dois sprints na Holanda, onde esteve muito longe do seu melhor. A equipa perdeu confiança nele? Nada. A Lotto-Soudal controlou hoje o pelotão durante todo o dia, sem medo de desgastar a sua equipa. No final, quando apenas restava Jürgen Roelandts, o belga fez tudo o que estava ao seu alcance.

Perco as contas às vezes que já elogiei esta equipa, sempre pelas mesmas razões, como perco a conta às vezes em que eles mostram o porquê de merecerem cada elogio.

André Greipel, que é um dos 15/20 melhores ciclistas do mundo (olhando a todas as especialidades), não tem nenhum problema em trabalhar para os seus colegas. Ano-após-ano, vai para as provas de pavé dar o corpo pelos seus companheiros, e não precisa de ser para um ciclista de topo, basta que seja para alguém que, naquele dia, naquela prova, parece mais forte. Como Jürgen Roelandts. Roelandts, que também é um grande ciclista mas incomparável com Greipel (apesar de já ter sido 3º em Flandres e Sanremo), sabe que durante o ano tem meia dúzia de oportunidades e o resto da temporada é para trabalhar. Os papéis estão bem definidos, para cada um, em cada prova, e cada um aceita, porque todos aceitam a liderança de quem tem, efetivamente, espírito de líder (os ciclistas da Etixx também se têm esmerado em elogias para Kittel, mas esses ficam para outra ocasião).

Amanhã é outro dia e para outros ciclistas, para trepadores, e o Giro é imprevisível. Poucas coisas são certas. Como a morte, os impostos, os ataques da Lotto e cada um a dar a vida pelo companheiro. É o que eles fazem. É a forma deles entenderem e estarem nesta coisa que é o ciclismo.
Roelandts, 3º em Sanremo

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