domingo, 24 de julho de 2016

O Tour de France foi muito de Froome

Froome confirmou o favoritismo que lhe era atribuído à partida para este Tour de France, e de passagem confirmou que ninguém poderia sequer estar próximo de si. Com Foi o melhor em toda a linha e as únicas dificuldades que teve foram causadas por uma queda: e mesmo nesse dia ganhou tempo ao segundo classificado. 

Chris Froome é o vencedor incontestável deste Tour. Aliás, o Tour foi tão de Froome que se deu ao luxo de antecipar a jornada de consagração. Em vez de, como tradicionalmente, em Paris, foi na última etapa de montanha, onde pôde terminar celebrando com quatro companheiros. Não se pense, contudo, que a etapa não foi seletiva. Foi. Não tanto como se gostaria, mas o suficiente para apenas catorze corredores chegarem no grupo principal e nele estavam cinco da equipa do líder. Nunca visto desde que há memória. Também o Tour mais aborrecido desde que há memória.

Romain Bardet foi segundo da mesma forma que já tinha subido ao pódio do Critérium du Dauphiné em junho e da mesma forma que tinha vencido uma etapa no ano passado, à custa da sua combatividade e bravura. É um corredor fantástico, não só pela capacidade física a subir mas também pela forma como ataca, seja a subir ou a descer.
Nairo Quintana falhou o seu objetivo de vitória mas subiu ao pódio, ou subiu ao pódio mas falhou o seu objetivo. Primeiro não atacou, depois atacou e perdeu tempo, depois nem na roda conseguia seguir mas nos últimos dias conseguiu subir ao terceiro posto. Parece-me difícil criticar alguém por não ter atacado nestas três semanas, quando em todas as etapas de montanha uma equipa ficava com três ciclistas no grupo dos dez ou doze mais fortes. 

Fábio Aru e, várias vezes, Daniel Martin tentaram. Ganharam escassos segundos. Terminaram dizimados por Wout Poels ou Mikel Nieve.

Uma das maiores surpresas deste Tour foi Adam Yates. Apesar do talento reconhecido e da hipótese de, se tudo corresse pelo melhor cenário, lutar pelo top-10 e a camisola branca, surpreendeu pela forma como resistiu até aos últimos dias em posição de pódio, caindo de lá apenas ao cair do pano e por escassa margem.

Saído da Sky para ganhar liberdade, Richie Porte ganhou a aposta. Não obteve o pretendido pódio, mas mostrou-se sólido durante todo o Tour e apenas falhou um lugar entre os três primeiros devido ao problema mecânico no final da segunda etapa. Alguns dirão que trabalhou para Froome ou que nunca atacou o seu companheiro. Parecem-me críticas injustas. Na verdade, não tinha porque o fazer. Depois de perder tempo precioso no segundo dia, fez todo o Tour a correr atrás do prejuízo, tentando ganhar tempo aos outros, que era adversários na luta pelos dois lugares que restavam em aberto. Em situações como as que vimos Porte a puxar com Froome na roda, é normal que o faça: o importante era ganhar tempo aos outros que estavam à frente na geral mas atrás na etapa. Num dos seus ataques na etapa de Finhaut-Emosson, apenas Froome e Poels conseguiram fechar o espaço, até que o diretor desportivo lhe dissesse ao ouvido que já não era preciso.

Alejandro Valverde fez um Tour de excelência, considerando que fez o Giro. Aliás, a primeira vitória de 2016 foi em fevereiro, venceu a Flèche Wallonne, foi ao pódio do Giro, esteve a roçar a sua melhor forma no Tour, vai estar a lutar pelas medalhas no Rio de Janeiro e mais qualquer coisa que se coloque pelo caminho no seu pico de forma fevereiro-outubro. É a melhor forma de ver um extraterrestre a andar de bicicleta, e pensar que podíamos ter perdido isto há 10 anos.

Sétimo foi outra das surpresas: Joaquim Rodríguez. Se pelo seu historial o posto não surpreende, surpreende por vir na sequência de uma temporada onde apenas tinha aparecido a bom nível na Volta ao País Basco, ao ser quinto. Pelo meio anunciou o término de carreira, por consideração com o facto de ter 37 anos.
Louis Meintjes foi outra das boas notas desta Volta a França, confirmando uma subindo um degrau na sua evolução - depois do décimo posto na Vuelta 2015, oitavo no Tour. Foi pena perder a sétima posição no desempate com Purito (por centésimos de segundos gastos nos contrarrelógios). Foi inteligente na forma de correr, considerando que na alta montanha esteve sempre sem apoio da sua equipa desde muito cedo (exceção para Durasek na 20ª etapa) e teve as pernas para acompanhar os melhores. A Lampre tinha tentado Rolland e Hesjedal no defeso, mas é Meintjes o homem que os recoloca no top-10 do Tour pela primeira vez desde Damiano Cunego em 2011 (6º).

Nono foi um dos mais combativos no que toca aos homens da geral: Daniel Martin. Por incrível que pareça, termina as três semanas inteiro. Aproveitando que trazia grande moral depois do excelente Critérium du Dauphiné, atacou variadíssimas vezes. E foi como bater contra uma parede variadíssimas vezes. Mas este 9º lugar deve dar mais moral para o futuro.

O top-10 é fechado por Roman Kreuziger, que subiu na última oportunidade, enquanto todos aproveitavam a sua vontade de melhorar na geral (e o seu super gregário Peter Sagan). Soube manter-se focado, compreendendo que não podia contar com ninguém mas também não podia esperar outra coisa.

De lamentar o azar de Bauke Mollema, mas parece que é sina de holandês. E a Astana, pela forma como encarou os Alpes, merecia melhor sorte do que ver o Fabio Aru quebrado assim. Foram 11º e 13º respetivamente. Também me parece injusto a Astana criticada por atacar a corrida. Aliás, a Movistar é criticada por não atacar e a Astana pelo oposto. A equipa cazaque tinha um excelente motivo para o fazer, porque nada lhes fazia antever que Aru ia ter um dia tão mau.

A camisola verde é, pela quinta vez em cinco participações, de Peter Sagan - juntando-se a três etapas. Os organizadores já tentaram mudar o sistema de pontuação para tornar mais difícil a vida ao eslovaco que continua sem dar hipóteses. É expectável que o continuem a fazer. Afinal, o objetivo das classificação secundárias é oferecer outros pontos de interesse à prova, mas Sagan não dá qualquer hipótese. E por muito que alterem, continuará a ser o principal favorito.
Montanha para Rafal Majka, com Thomas de Gendt em segundo e Jarlison Pantano em terceiro. Combatividade para Peter Sagan (3 votos), também com com De Gendt em segundo (2 votos) e Pantano em terceiro (1 voto). A Tinkoff acabou por fazer um excelente Tour.

De Gendt, Pantano e Sagan foram de uma combatividade louvável. Em variadíssimas ocasiões Sagan estava a trabalhar para os seus colegas, mas os três, sempre que estiveram em fuga, deram excelentes contributos para que estas vingassem. Felizmente foram premiados. Pantano mostrou-se numa grande montra a este nível pela primeira vez, De Gendt já se sabia que é um hino ao ciclismo de ataque.
Tom Dumoulin também realizou um Tour de elevadíssimo nível com duas vitórias e assim perfaz cinco triunfos de etapas nas últimas três grandes voltas. Abandonou lesionado mas ainda com hipóteses de estar no Rio de Janeiro, o que espero que aconteça.

Nos sprints, Mark Cavendish voltou a dominar com surpresa. Vencer uma etapa parecia uma fasquia razoavelmente colocada, mas foi ultrapassada com grande margem: foram quatro no total. Marcel Kittel apenas leva uma, o que sabe a pouco numa temporada que tem sido excelente, e André Greipel salvou-se na derradeira chance. Ainda assim, os dois alemães ficaram aquém do esperado, aquém dos seus melhores Tours.

Outras etapas para Greg Van Avermaet, que vestiu de amarelo e podia estar na secção dos combativos, Stephen Cummings, que repetiu o alcançado em 2015, Michael Matthews, que agora já venceu nas três grandes, Ilnur Zakarin, que em 2017 será o chefe-de-fila da Katusha, e Ion Izagirre, um dos melhores da temporada.


Classificação geral
1 Christopher Froome (GBr) Team Sky 89:04:48  
2 Romain Bardet (Fra) AG2R La Mondiale 0:04:05  
3 Nairo Quintana (Col) Movistar Team 0:04:21  
4 Adam Yates (GBr) Orica-BikeExchange 0:04:42  
5 Richie Porte (Aus) BMC Racing Team 0:05:17  
6 Alejandro Valverde (Spa) Movistar Team 0:06:16  
7 Joaquim Rodriguez (Spa) Team Katusha 0:06:58  
8 Louis Meintjes (RSA) Lampre - Merida  
9 Daniel Martin (Irl) Etixx - Quick-Step 0:07:04  
10 Roman Kreuziger (Cze) Tinkoff Team 0:07:11

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