quinta-feira, 14 de julho de 2016

São "azares do ciclismo", não para Froome

Muitas vezes se pergunta se algo é sério ou ironia, como se houvesse coisa mais irónica do que a realidade. Por exemplo, imaginar que na Volta a França, maior corrida de ciclismo do mundo, os ciclistas ficam sem espaço para passar. O camisola amarela estatela-se contra a moto. O camisola amarela a correr montanha a cima. Imaginem Nairo Quintana a ver o camisola amarela a correr ao lado e a pensar que aquilo já estava mesmo a bater demais. Ou imagine-se que, afinal, o tempo perdido nas montanhas é anulado. Onde termina a realidade e se inicia a ironia? Uma vez mais, a treta supera a realidade.

A etapa de hoje começou logo ontem, quando foi alterada, encurtada em seis quilómetros, devido aos fortes ventos que se faziam sentir no Mont Ventoux, tornando impossível que os ciclistas mantivessem o controlo das bicicletas.

Foi uma etapa muito movimentada e a superar as expectativas, com a Etixx, Trek e Orica a provocarem cortes que eliminaram Warren Barguil e Louis Meintjes, depois a BMC a trabalhar para eliminar do grupo os roladores das três equipas antes mencionadas. As três tinham feito um excelente trabalho à custa dos seus homens possantes mas não tinham muitos ciclistas talhados para as subidas, o que a BMC tentou aproveitou nas duas primeiras contagens do dia.

Depois caiu Simon Gerrans (impressionante a quantidade de vezes que cai) e com ele Ian Stannard e Luke Rowe. Então deu-se um dos trechos de etapa mais ridículos que já tive a ocasião de presenciar. Lá estava a treta a superar a realidade.

O regulamento não diz nada quanto a isto, mas existe uma certa ética (respeita quem quer) de não atacar a corrida quando um dos adversários sofre um problema. Isto é, se já estiver lançada, continua lançada (como no furo de Richie Porte no 2º dia em que ninguém esperou). Se não estiver lançada, não parece correto atacar. Esta é a minha visão mas é algo naturalmente subjetivo e depende do entendimento de cada um.

O que nunca tinha visto foi algo deste género. Perante a queda de dois corredores da Sky, sem que tivesse nenhum problema, o camisola amarela pára por sua iniciativa para obrigar o grupo a esperar. Não é novidade para quem tem acompanhado este Tour que a corrida é sua e basta ver que o pódio tem que ficar à espera que Froome termine a descompressão feita nos rolos, desrespeitando o protocolo e o que está combinado com as televisões de todo o mundo. Mas hoje, Chris Froome, o mesmo que consegue autorizações terapêuticas excecionais (TUE) em tempo recorde, quis elevar o braço de ferro e boicotar o ritmo, estragando o excelente trabalho que tinha sido feito até então, em diversas partes da corrida, por Etixx, Trek, Orica e BMC. Também por Fábio Aru, que tinha feito duas mudanças de bicicleta e duas recuperações ao pelotão sem que ninguém esperasse por si. Froome parou para que esperassem pelos seus gregários.

Nisto, apareceu no pelotão, o maior fator de bloqueio de corrida. Não o vento, não a chuva, não a neve, mas Fabian Cancellara. No seu vasto historial, destacam-se quando parou a etapa do Tour 2010 (aí tinha camisola amarela e pensou-se que fosse por isso), no ano passado foi um dos responsáveis por anular uma etapa da Volta ao Dubai, neste Tour mandou que todos esperassem aquando da primeira queda de Contador (Contador já estava em negociações muito avançadas com a Trek) e hoje mandou novamente parar o pelotão. As regras são claras: a corrida desenrola-se apenas se Cancellara entender. Alejandro Valverde protestou na frente do pelotão e pode-se perguntar se não deveria a Movistar ter tomado a iniciativa de forçar o ritmo, mas a equipa espanhola não quis tomar a iniciativa.

Quem lê este blog há anos sabe que há um ano não pensaria dizê-lo mas tenho que me render ás evidências: felizmente Cancellara vai terminar carreira.

Já na subida final, ataques de uns e ataques de outros, ataca Chris Froome, Richie Porte respondeu quase antes do próprio ataque (quando viu as pernas começarem a rodar desenfreadamente) e Nairo Quintana. Mas colombiano cedeu e de trás veio Bauke Mollema, formando um novo trio no que aos favoritos ao pódio diz respeito. Hoje, Froome, Porte e Mollema foram os mais fortes.

Já dentro do último quilómetro, o público impediu a passagem das motos, em parte por culpa da organização, que não colocou barreiras onde devia, Richie Porte foi contra a moto e com ele caíram Chris Froome e Bauke Mollema. Depois as peripécias de Froome a correr, Froome à espera de uma bicicleta, Froome numa bicicleta que não está nas suas características, Froome novamente a mudar de bicicleta... enfim, um cenário de horrores que parecia digna da coleção das Aventuras da Anita ou até, se quisermos ir um pouco mais longe, às Aventuras do Presidente Marcelo. Essas imagens estarão por todos os sites, sobretudo aqueles que apenas se lembram do ciclismo quando existem quedas aparatosas ou peripécias do género.
Froome e Porte perderam tempo devido a um incidente provocado pela organização, pelo público, pelo que seja, mas de qualquer das formas um incidente muito triste que prejudica a imagem da modalidade e desta que é a sua principal prova, a sua principal montra. E um incidente numa etapa em que não se aplica a regra dos 3 km (segundo o regulamento da própria prova).

Para quem segue a modalidade há anos, parecia uma pena, uma fatalidade, mas era isso. Afinal, é assim que costuma ser. Mas não. Afinal, era Froome e é a Sky, onde trabalha o filho do presidente da União Ciclista Internacional, uma rede familiar, algo muito visto em alguns países mas também em federações desportivas.

Mas iniciou-se uma enorme espera, que nunca se teria iniciado se envolvesse um ciclista de um país pequeno. Se não fosse o camisola amarela, perderia tempo e pronto. Mas aquela espera apenas poderia significar uma coisa: estavam a procurar algum motivo para anular as diferenças. Mas não podia! Era maus demais!

Quem segue a modalidade sabe que não podia. Por exemplo, Greg Van Avermaet perdeu a Clásica San Sebastian de 2015 quando foi atropelado na frente de corrida por uma mota. Dessa vez a vitória passou para Adam Yates, que curiosamente é britânico. Foi há menos de um ano. Não podíamos acreditar que em duas situações semelhantes fossem tomadas decisões opostas, sempre beneficiando os britânicos. Era maus demais. Mas foi o que aconteceu.
Não falta na história incidentes causados por adeptos ou motas e nunca se neutralizaram tempos. No último ano Peter Sagan e Sérgio Paulinho tiveram acidentes com motas e foi só isso, não foram ressarcidos de nada. Alguém me consegue confirmar numa Volta a Portugal, salvo erro numa chegada à Torre, aqui há uns anos? Creio que foi Zintchenko com uma bandeira na roda da bicicleta, talvez alguém me ajude (editado: aqui está notícia da época). Lucien Van Impe foi atropelado por uma mota no Tour de 1977 quando estava a 33s da amarela na geral, seguia na frente da etapa e não lhe foi ressarcido o tempo. Stig Broeckx foi atropelado no início do ano por uma mota e não foi ressarcido (entretanto voltou a ser vítima de um acidente com mota numa corrida e está em coma).

Mas chegava a decisão e todos já sabem qual foi. Há um ano, em San Sebastian, respeitaram-se os tempos de meta e a vitória foi para o britânico Adam Yates. Desta vez alteraram os tempos da meta e deram ao britânico Chris Froome o tempo de Bauke Mollema. Curiosamente, Adam Yates diz que é a decisão justa. Uma pena que não tenha defendido o mesmo à um ano.

O grupo em que seguia Aru, Quintana, Rodríguez, Bardet, Van Garderen e companhia teve que parar, todos foram prejudicados por aquela confusão perfeita criada entre adepto, excesso de motos e falta de barreiras. Como questiona Mollema, o que teria acontecido se apenas ele tivesse caído? Ah, terias perdido tempo, claro!
Esta decisão está tomada e finalmente Chris Froome pôde subir ao pódio vestido de amarelo, recebido por uma espetacular assobiadela.

Abre-se hoje um precedente. Daqui em diante, sempre que alguém seja prejudicado por incidentes do género, tem que ser revisto o tempo, mesmo desrespeitando todas as regras. Ou as regras são claras: Em caso de dúvida, o prémio da combatividade é para o francês que estava na fuga; a corrida segue até que Cancellara decida; os tempos são válidos conforme convier aos britânicos.

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