terça-feira, 12 de julho de 2016

Pirenéus mornos, Froome a salvo com vantagem mais curta

Arranca hoje a segunda semana da Volta a França, depois de uma passagem pelos Pirenéus onde houve momentos de interesse, surpresa e desilusões, mas cujo balanço final é morno.

Com apenas uma contagem de montanha de dificuldade, o Col d'Aspin, a etapa de sexta-feira não seria palco para ataques entre os principais favoritos, mas estando a classificação geral tão equilibrada, seria de esperar que algum ciclista de segunda linha tentasse surpreender e ganhar algum tempo que poderia valer a camisola amarela. Greg Van Avermaet (chapeau!) decidiu eliminar essa hipótese ao defender a sua liderança desde a fuga do dia e a queda do insuflável do último quilómetro penalizou um dos poucos que tentaram algo, Adam Yates. A vitória de Stephen Cummings é um dos poucos pontos de destaque positivos destes três dias, mexendo-se na altura certa: aproveitou que tinha alguns metros de vantagens do grupo perseguidor e atacou antes da junção dos grupos e antes de entrar na subida com Nibali e Navarro, em teoria as maiores ameaças. A Dimension Data fez aí quatro vitórias em sete etapas (e agora 4 em 9), juntando-lhe a camisola verde de Mark Cavendish.

O segundo dia ficou marcado pela excelência da movimentação da Sky, fazendo esquecer o quão aborrecida foi a etapa até ao ataque de Froome. Aliás, tem sido uma Volta a França assim mesmo, também com sprints apertadíssimos a fazerem esquecer o quão monótonas foram as três horas anteriores.

À parte de qualquer outra questão, parecem-me inquestionável que a Sky preparou esta etapa como mais nenhuma equipa preparou nenhuma etapa no Tour. Chris Froome diz que tudo foi por acaso, o que obviamente não foi, mas pretende que os adversários continuem a ignorar os sinais.

Na contagem de montanha anterior, Chris Froome foi buscar os pontos da montanha. Nos últimos anos, desde que o sistema de pontuação foi alterado, os homens da classificação geral, sem fazerem por isso, tem estado no topo da classificação da montanha - Froome e Quintana foram primeiro e segundo na geral de 2013 e 2015 mas também na montanha (cada um com uma vitórias) e Nibali foi segundo na montanha quando venceu a geral. Quando Froome acelerou para a penúltima montanha, pensaram que era para amealhar alguns pontos da montanha que poderiam valer a vitória dessa classificação no final. Quando fez o mesmo na última subida, já estavam mentalmente preparados para pensar o mesmo. Enganaram-se e aqueles 100m no final de subida/início de descida também fazem parte da corrida, não servem apenas para apanhar bidões e corta-ventos se for o caso. Depois, reparem como Froome se preparou para conseguir pedalar naquela posição. Não é inovador, Froome não inventou nada, mas gastou horas para conseguir fazer algo que os seus adversários não fazem. E tinha uma pedaleira mais pesada, ao ponto de conseguir pedalar onde os rivais não conseguiam e isso permitiu ganhar tempo na primeira fase da descida, uma descida que não era técnica.

Por fim, a última etapa dos Pirenéus, a única que valeu por mais do que o final, com Alberto Contador respondido por Alejandro Valverde e Sergio Henao a levarem a um ritmo brutal logo na primeira subida. Pela primeira vez, a Movistar conseguiu eliminar meia Sky muito cedo. É certo que Valverde iria desgastar-se mais, mas Quintana ficaria com Jesus Herrada e Winner Anacona na frente, qualquer um poderia ceder mais à frente e aguardar por Quintana, mas a equipa espanhola optou por fazer descolar Valverde para que a fuga pudesse vingar. A fuga vingou porque o ritmo lá atrás diminuiu muito e isso também permitiu que o pelotão se voltasse a reagrupar e que Poels, Landa e Nieve se pudessem poupar atrás de Kiryienka, Stannard e Rowe.

Na frente, uma vintena de ciclistas de diferentes qualidades e características e equipas com diferentes números de representantes e diferentes atitudes. Além dos dois da Movistar, a Astana também colocou dois (Rosa e Luis León Sánchez), a Tinkoff os seus homens que lutam por camisolas - Majka e Sagan. Também lá estavam Vuillermoz, Rui Costa, Thibaut Pinot e Gallopin, portanto muitos ciclistas que sabem o que é vencer etapas no Tour. No caso de Pinot, que tinha quebrado no Aspin, é o segundo ano em que se vê arredado da luta pela geral mas logo a seguir entra numa luta endiabrada para vencer uma etapa e honrar as expectativas que os franceses têm sobre si. No ano passado venceu no Alpe d'Huez e espero que este ano também consiga algo, porque é um ciclista que falha mas deixa sempre o couro na estrada.


Porque muita gente me tem perguntado pelo Tour do Rui Costa, faço aqui um parênteses na etapa e nos Pirenéus para tentar dar a minha opinião apenas uma vez, sendo que muita coisa já aqui escrevi noutras ocasiões.

O Rui Costa ultrapassou as barreiras do ciclismo e tornou-se um dos maiores símbolos do desporto português, captando inclusive a atenção de pessoas que não acompanham ciclismo regularmente mas mesmo assim começaram a interessar-se pelo que ele fazia e pelo que poderia fazer no Tour.


No ano passado escrevi aqui que aquela coisa de escrever todos os dias a justificar-se deveria terminar pois só era prejudicial para o próprio. Mas continuou, sem nunca assumir que um resultado era mau. Todos os resultados eram bons considerando que as provas eram para ciclistas mais leves, ciclistas mais pesados, maiores ou mais leves. A última foi a Volta à Suíça, onde aparentemente tudo correu bem considerando que o objetivo era estar na melhor forma apenas para o Tour. Os adeptos, e ninguém os pode culpar por isso, foram alimentando as expectativas de que num dia que não fosse para mais leves, mais pesados, mais altos, mais baixos, num dia em que a quantidade de montanhas fosse a ideal, com a inclinação ideal e a forma ideal, a vitória era certa em qualquer prova. Agora tiveram um choque de expectativas. Ninguém pode culpar os adeptos porque o diário durante anos tem alimentado isso.

Por fim, o Rui Costa tem capacidade e todas as condições para vencer uma etapa neste Tour, o que acredito que fará nas duas semanas que faltam. Sei que não se pode ter certezas, nada é certo no ciclismo, mas digamos que tenho uma grande confiança de que o fará. Mas não posso esconder a minha surpresa ao ver um tri-vencedor da Suíça, tri-pódio na Romandia, pódio no Paris-Nice e Dauphiné, agora a seguir tantas etapas nos grupetos à espera desse dia. Até porque sempre foi um ciclista de Tour, que sacrificou as hipóteses de fazer algo no Giro ou na Vuelta para estar a topo no Tour como os voltistas.

Regressando à etapa, foi vencida por Tom Dumoulin, que completa assim o ciclo de vitórias na Vuelta do ano passado (duas), Giro deste ano e Tour. Três grandes voltas consecutivas com vitórias de etapas e sempre discursos muito conscientes das suas capacidades. Não tem capacidade para maiores inclinações nem para responder a ataques, mas se o deixaram ir ao seu ritmo constante, ele vai e agradece.

Na subida para Arcalis faltou algum ataque de Nairo Quintana, que fez toda a subida na roda de Chris Froome. É verdade que Quintana sai dos Pirenéus com uma desvantagem muito menor do que o sucedido em 2013 e 2015, mas esta semana tem um contrarrelógio em que Froome poderá aumenta-la consideravelmente e poderia ser bom Quintana atacar no Mont Ventoux (quinta-feira), porque se esperar pelos Alpes poderá ter Froome já com uma vantagem que lhe permite "gerir". Infelizmente creio que o Mont Ventoux terá o colombiano a poupar-se para o contrarrelógio e que serão os dois cronos a decidiu este Tour, com Froome a arrasar na crono-escalada com a sua inestética pedalada. Ele e a Sky também terão trabalhado muito para que desta vez se consiga levantar da bicicleta quando acelerar e, se possível, que desta vez o ritmo cardíaco aumente.

Alberto Contador abandonou, o que parece uma excelente decisão, porque não estaria neste Tour ao seu melhor nível e agora, dependendo do que tenha, poderá preparar-se para a Vuelta. Depois de duas quedas na semana anterior, voltou a ser traído no seu país, desta vez com febre. Um problema para ele quando o Tour passa pelos Pirenéus.

A grande desilusão foi Fabio Aru. Curiosamente, no primeiro dia que Aru precisou, Vincenzo Nibali estava lá, mas não impediu Aru de perder um minuto.

Tudo indica que este ano teremos pelo menos uma estreia no pódio, pois Valverde, Contador e Nibali estão fora dessa luta e não acredito que Purito lá chegue. Richie Porte deu um grande sinal no domingo e mostrou porque não poderia ser riscado da liderança da BMC quando furou - fazia falta ver quem estava melhor entre ele e Van Garderen. Dan Martin, Bauke Mollema e Romain Bardet também são candidatos a isso e Adam Yates fez um excelente arranque.

Classificação geral à nona etapa
1 Christopher Froome (GBr) Team Sky 44:36:03  
2 Adam Yates (GBr) Orica-BikeExchange 0:00:16  
3 Daniel Martin (Irl) Etixx - Quick-Step 0:00:19  
4 Nairo Quintana (Col) Movistar Team 0:00:23  
5 Joaquim Rodriguez (Spa) Team Katusha 0:00:37  
6 Romain Bardet (Fra) AG2R La Mondiale 0:00:44  
7 Bauke Mollema (Ned) Trek-Segafredo  
8 Sergio Henao (Col) Team Sky  
9 Louis Meintjes (RSA) Lampre - Merida 0:00:55  
10 Alejandro Valverde (Spa) Movistar Team 0:01:01  
11 Tejay Van Garderen (USA) BMC Racing Team  
12 Roman Kreuziger (Cze) Tinkoff Team 0:01:16  
13 Fabio Aru (Ita) Astana Pro Team 0:01:23  
14 Richie Porte (Aus) BMC Racing Team 0:02:10  
15 Warren Barguil (Fra) Team Giant-Alpecin 0:02:51  
16 Geraint Thomas (GBr) Team Sky 0:03:20  
17 Pierre Rolland (Fra) Cannondale-Drapac 0:04:01  
18 Sébastien Reichenbach (Swi) FDJ 0:05:22  
19 Wilco Kelderman (Ned) Team LottoNl-Jumbo 0:05:28  
20 Jurgen Van Den Broeck (Bel) Team Katusha 0:05:33

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