quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Coppi & Bartali: Dois Ciclistas e uma Guerra - O final

Gino Bartali e Fausto Coppi tiveram tanto a uni-los como a separa-los. No primeiro prato da balança está a incapacidade de separar a vida do ciclismo. Não imaginavam uma vida sem ciclismo e por isso Bartali correu até aos 40 anos de idade, quando tudo era muito mais desgastante do que hoje, e Coppi correu até à mesma idade, que foi a da sua morte.


Quando se preparava para aquela que seria a última temporada, no final de 1959, Coppi foi numa viagem ao Alto Volta, atual Burkina Faso, por sugestão do seu amigo Raphael Géminiani e com a presença de outros ciclistas. Iriam correr alguns critérios na então colónia francesa e fazer alguma caça. Depois de regressar ao seu país, a 27 de dezembro, sentiu-se doente. Tal como Géminiani (hoje com 90 anos), Coppi sofria de malária, mas o seu diagnóstico foi mais lento e não resistiu. No dia 2 de janeiro de 1960, Fausto Coppi faleceu. O homem deu lugar ao mito.


O Mito de Coppi

Fausto Coppi chegou a um nível mitológico que mais nenhum ciclista alcançou. É algo que não se explica apenas pela qualidade, nem a sua, nem a dos restantes grandes campeões. Bartali era força visível, Coppi era franzino e parecia impossível que tirasse tanta força dum corpo aparentemente tão débil. Deu origem a música, foi contado em biografias, inspirou romance e foi filme. Seriam necessárias décadas para se conhecer toda a grandeza de Bartali, mas Coppi não. Coppi foi aquilo. Morreu enquanto ciclista e a morte precoce preservou-o num estado de graça. Não envelheceu nem engordou depois do ciclismo, porque não houve "depois do ciclismo" para ele, mas houve um "depois de Coppi" para o ciclismo.

Diz-se que Coppi modernizou o ciclismo, dando-lhe um rigor desconhecido até então. Bartali fumava, bebia álcool, ficava acordado até tarde. Coppi fazia dieta, inspecionava o final das etapas, foi pioneiro no treino com mota e no treino de intervalos no ciclismo. Bartali foi o melhor do ciclismo que havia. Segundo Géminiani, "Coppi inventou o ciclismo". Jacques Goddet, organizador do Tour entre 1936 e 86, escreveu após a morte de Coppi que "o respeitável bruto que apenas pedala é uma espécie extinta. O ciclismo tornou-se um desporto de inteligência, cuidado e conhecimento técnico. Graças a Coppi".

Coppi não foi o primeiro a usar, mas marcou até hoje pela forma como falou da utilização de fármacos. "Sou profissional. Se posso descobrir um medicamento que não prejudica o meu coração e sistema nervoso, não hesitarei em utiliza-lo para ganhar. E estaria louco de alegria se fosse o químico que o descobriu". Convém esclarecer: não era proibido


Bartali e a Guerra

Gino Bartali teria uma vida muito mais longa e, tal como muitos outros grandes ciclistas noutros países, também foi comentador e tornou-se uma voz respeitada. Viria a falecer em 2000, aos 85 anos de idade. E foi já após a sua morte que se revelou a façanha mais grandiosa dessa longa vidaDurante a 2ª Guerra Mundial, enquanto servia como mensageiro, não foi apenas mensageiro do exército.

Na Itália dos anos 40, controlada por Mussolini, ser judeu era punido com pena de morte e ajudar um judeu a escapar da sua "sentença" era suficiente para um bilhete de comboio, daqueles que iam e não voltavam, para um campo de concentração nazi. Bartali sabia disso e sabia os riscos que corria, mas não podia aceitar essa realidade sem oposição.

Aproveitando a sua boa fama e a bicicleta que tinha para cumprir o serviço de mensageiro, Bartali entrou numa organização clandestina que traficava documentação para ajudar judeus a fugir às perseguições. No quadro da bicicleta, escondia a documentação e pedalava até ao local de entrega. Se alguma brigada o abordava, dizia que estava a treinar. Quem poderia desconfiar do vencedor da Volta a França a pedalar? Se alguém se aproximava da bicicleta, pedia para terem muito cuidado com a sua bicicleta. Quem iria desrespeitar um herói nacional? Se o incomodassem muito, dava autógrafos.

Dentro da organização, quanto menos soubesse, melhor. Isso garantia que, se fosse descoberto e o torturassem, não tinha mais nada a revelar. Pela mesma razão, a família apenas foi informada após o final da guerra. Durante, Bartali apenas sabia o local de recolha e de entrega, pelo meio fazia o que melhor sabia e o satisfazia: pedalar e ajudar.

Apesar das várias biografias que foram escritas durante a sua vida e com as quais colaborou, apesar das muitas entrevistas dadas, Bartali nunca revelou o auxílio prestado. Foi utilizado por Mussolini como arma de propaganda política fascista, várias fações da sociedade italiana próximas do Partido Comunista tentaram retratar Bartali como um apoiante do ditador mas nem assim o ciclista revelou a ajuda que tinha dado aos judeus. Quando mais tarde perguntaram ao seu filho, Andrea, porque o pai nunca tinha falado, respondeu: "o meu pai ensinou-me que era nosso dever fazer o bem, mas não falar sobre isso. Se estás a falar, estás a promover-te através da desgraça dos outros". Quando lhe disseram que o pai era um herói, contra-argumentou. "Ele só queria ser conhecido como um desportista. Heróis eram aqueles que sofriam pelos que amavam".

Felizmente, a vida é muito grande, o suficiente para colocar quase tudo no seu lugar. E se não for o bastante, a morte é mais larga ainda.


Gravura do jornal Corriere dello Sport, edição de 25 de julho de 1949

Coppi e Bartali

Dois grandes ciclistas, sem dúvida. Dois dos melhores. Gino Bartali foi o melhor numa época, Fausto Coppi foi o melhor até uma época. Apesar da enorme qualidade e palmarés de Jacques Anquetil, seria necessário esperar pela década de 70 e Eddy Merckx para afirmar, sem reservas, que havia alguém melhor do que Coppi tinha sido. Hoje o ciclismo é diferente, torna-se injusto comparar. Mas injusto para os melhores do ciclismo atual, que não podem lutar por Tour, Paris-Roubaix e Sanremo no mesmo ano, ou injusto para Merckx, Hinault, Coppi, Anquetil, Bartali, que iam a todas de março a outubro com um ferro pesado?

O que teriam sido sem a guerra é outra dúvida que permanecerá. Gino Bartali venceu cinco e pelo meio perdeu cinco que não se realizaram, quando já estava no topo do ciclismo europeu. Venceu dois Tours com dez anos de intervalo, nos quais nunca pôde disputar a prova. Fausto Coppi venceu cinco Giri, perdendo pelo meio também cinco edições que não se realizaram pela Guerra, durante parte da qual esteve prisioneiro. Venceu dois Tours, em apenas três participações. Entre a primeira vitória no Giro e a primeira no Tour, em condições normais, poderia ter disputado nove edições da prova francesa, mas não pôde nas condições da época. Quanto mais teriam ganho, não saberemos, mas algo teria sido.

De Bartali e Coppi, um em relação ao outro, sobram pontos de união e sobram pontos de divisão. O velho e o novo, amigos ou inimigos, companheiros ou rivais. Bartali disse que Coppi era um dos poucos amigos verdadeiros, até que era o melhor, que eram como irmãos. Outros dizem que não chegava a tanto. Giovanni Corrieri, que privou com os dois na seleção italiana, que ajudou ambos a venceram a Volta a França, disse que "eram rivais mas não se odiavam. Temiam-se mas respeitavam-se." Na rivalidade de Bartali e Coppi, talvez como em todas as rivalidades, havia algo de amizade: a confiança. Cada um sabia com o que podia contar por parte do seu adversário. Mais do que isso, várias vezes pediram que o outro ficasse de fora do Tour. Porque ali teriam que ser companheiros. Eram incapazes de se enfrentar na estrada com a camisola da seleção.

Sobre si muito se pode escrever. Por isso não faltam livros, jornais e estes quatro artigos são apenas uma gota no oceano. Quem se interessar pelo tema, pode mergulhar. A sua relação talvez fique aprisionada dentro duma garrafa.

Não é apenas a "fotografia do ano" de 1952. É a fotografia de Coppi e Bartali. Ali não se percebe quem ajuda e quem é ajudado, não se percebe se são amigos ou inimigos, se são companheiros ou rivais. Ou então, são tudo isso. O velho, o novo, amigos, inimigos, companheiros e rivais. Unidos por uma garrafa. Gino Bartali e Fausto Coppi.


Capa do anuário "Un Anno di Sport" de 1952

Série de artigos Coppi & Bartali: Dois ciclistas e uma Guerra:

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