terça-feira, 31 de agosto de 2010

Vai dar uma grande Vuelta

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Somos raros. Gostamos e seguimos um desporto em que se luta pela transparência. Na televisão, vemos notícias de futebol, uma organização ao estilo de Don Vito Corleone ou qualquer outro mafioso: “não te cobro nada, ficas a dever-me um favor e pagas-me quando eu decidir”. A esse tema, já lá vamos, porque vai dar uma grande volta e antes vamos à Vuelta.
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É bem mais interessante e uma das minhas corridas favoritas. Pouco vi do contra-relógio nocturno mas quem viu na estrada diz que foi um espectáculo. De qualquer forma, primeira camisola vermelha para Cavendish, que no dia seguinte perdeu a etapa para Hutarovich. Que seja desconhecido por alguns adeptos, é normal. Que seja desconhecido de jornalistas de ciclismo, não, de forma alguma. Quando se tem 6 ou 7 dos melhores sprinters mundiais presentes e ganha o Hutarovich, pode chamar-se de surpresa, mas daí até dizer que ganhou um desconhecido vai uma boa diferença. Sendo 5º, o Manuel Cardoso mostrou que tem capacidade para estar entre os melhores sprinters, algo que nós já sabíamos.
A etapa de ontem vem no seguimento duma política que gosto na Vuelta e bem precisava de ser seguida pelo Giro: não dar muitos quilómetros a etapas que não precisam de muitos quilómetros. Se se sabe de antemão que a etapa é para uma fuga inicial ser alcançada perto do fim, qual a diferença entre ter 200-230 ou 150-185 km? A diferença é que é menos uma hora de seca para os ciclistas e adeptos e média mais alta. Os números falam por si: no Giro eram 9 etapas com mais de 200 km, na Vuelta são apenas 2 com mais de 200 e apenas 4 com mais de 190 km.
Vitória de um super Gilbert que quer ganhar o Mundial mas se calhar antecipou-se no pico de forma. Hoje, mais uma etapa com final numa colina, agora com vitória de Anton, um rapaz de 27 que em 2008 estava a lutar pelos primeiros lugares da prova e em grande forma mas caiu na etapa do Angliru. Este ano, já bateu o Contador na montanha, na Volta a Castela e Leão, o que mostra bem a sua qualidade. Olho com ele!
Nestas duas etapas, além do Antón, também o Joaquim Rodríguez e o Nibali se mostraram em forma e o Menchov, o Frank Schleck e o Mosquera estiveram dentro do esperado. O Kreuziger ficou para trás hoje a descer e o Andy Schleck perdeu uma enormidade de tempo mas, tendo em conta que já tinha dito que não estava em Espanha para disputar a geral, nada de estranho, embora eu acreditasse que ele demoraria mais tempo a mostrar a falta de forma.
No Tondo não se nota a falta de competição, enquanto o seu colega Sastre se faz notar pela falta de capacidade (pelo menos, actual) que todos já deviam esperar.
Do Vandevelde e o Intxausti esperava mais mas não estão praí virados, ao contrário de Roche, Van Garderen e Peraud, que me despertavam alguma curiosidade e têm estado bem (muito bem no caso dos 2 primeiros).
Para acabar o tema Vuelta por hoje: seguem-se três etapas para sprinters. Carrega Manel!
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Voltemos ao tema inicial. Uma marca do ciclismo é a sua luta contra o doping. Citando de cabeça um amigo meu (Daniel Sánchez, RP da Footon), “o ciclismo é mais limpo que os outros porque luta como nenhum e para mim isso é indesmentível”. Citando alguém do meio do ciclismo (não digo o nome porque não tenho a certeza), “se a GNR fizer 100 testes do balão, tem mais hipóteses de apanhar alguém do que se fizer 10”. É isto que se passa no ciclismo. Ou melhor, no ciclismo não se passa nada. Passa-se é na generalidade dos desportos, como no futebol, onde quase nada se faz contra o doping e, quando se faz, são todos amigos contra a ADoP e o Luís Horta. Por o Carlos Queiroz ter mandado a brigada anti-doping ir fazer as análises para a zona vaginal da mãe do Luís Horta em palavreado menos simpático, até o Luís Filipe Vieira e o Pinto da Costa são testemunhas de defesa. No caso do primeiro, tem o Luís Horta como inimigo desde o caso Nuno Assis e no caso do segundo… nada como alguém possuidor de honestidade, honra e outros valores semelhantes.
Quanto à SIC, que já tinha lançado o Gato Fedorento, lançou hoje o Carlos Queiroz para o mundo da comédia através de uma entrevista. Diz que 7h30/7h45, é um horário sem sentido para um controlo surpresa. Quantos ciclistas já foram controlados antes disso? Para o Queiroz, o melhor deve ser agendar uma reunião a combinar hora. Um dos argumentos de defesa que usa é que “estava no sítio errado à hora errada”. Anotem este argumento porque pode ser muito útil. Imaginem que são apanhados no radar a 160 km/h. O que dizem? “Estava no sítio errado à hora errada”.
Diz também que podiam muito bem ter esperado meia hora, uma hora ou até hora e meia. Segundo este professor licenciado e mestre em Educação Física, “não fazia diferença”. Claro que não. Era tempo suficiente para qualquer mascarante. Deve ter tirando um curso como o outro engenheiro.
Por fim, usar como argumento de defesa que o Alex Ferguson (treinador do Manchester United) disse que faria o mesmo ou pior, está ao nível de uma desculpa de escola primária.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Vuelta, a partir de amanhã

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Vem aí mais uma edição da Vuelta, prova que cada vez recebe mais interesse extra-fronteiras. Tal como no ano passado, a Vuelta volta a ter ciclistas de toda a Europa entre os candidatos à vitória, o que não acontecia na primeira metade desta década. Para se ter uma ideia, apenas 2 estrangeiros no top-10 em 2001, 2002 e 2003. 2004 foi o ano em que ficou mais claro a falta de interesse que a prova despertava no estrangeiro, tendo apenas 2 forasteiros no 25 primeiros. Com o aparecimento do Pro Tour em 2005, esta situação começou a alterar-se lentamente. Depois da desclassificação de Heras, a vitória foi para o russo Denis Menchov, primeiro estrangeiro a vencer desde Ullrich em 99.
A partir de 2006, a prova foi disputada por espanhóis e estrangeiros que falharam objectivos no Tour. Em 2006, o pódio foi preenchido por Vinokourov, Valverde e Kashechkin, um trio muito curioso. Os cazaques ficaram de fora do Tour porque mais de metade dos inscritos da equipa para a prova francesa estava listada na Operación Puerto (embora alguns fossem rapidamente retirados de lá) e o espanhol foi ao Tour mas desistiu por queda antes da prova entrar sequer em França. Entretanto, 2 já estiveram suspensos por doping e um ainda está.
2007 foi o ano da segunda vitória de Menchov, que desistira no Tour anterior. Sastre, que fora 4º no Tour muito longe do pódio, foi 2º na Vuelta longe da vitória, Samuel Sánchez foi terceiro e Evans, que ficou a 23s da vitória no Tour, ficou a 10s do pódio na Vuelta. Em 2008, a prova foi decidida entre Contador e Leipheimer, que não tinham ido ao Tour, com Sastre a ser 3º depois da vitória no Tour. Foi o melhor conjunto de resultados Tour-Vuelta da década, mas teria feito melhor se não fosse lá. Assim, demonstrou que Contador só não ganhou o Tour porque não esteve presente, algo do qual já se desconfiava.
A edição de 2009 foi vencida por Valverde. Quando a prova começou, havia a ideia de que era o grande favorito e a certeza de que no ano seguinte não estaria presente por estar suspenso. Mesmo sem o último vencedor, a prova que amanhã começa terá uma grande lista de participantes em termos de qualidade.
Menchov, o melhor ciclista de grandes voltas nascido entre Armstrong e Contador, é um dos principais candidatos, juntamente aos jovens Nibali e Kreuziger, a Frank Schleck que diz que este é o seu objectivo desde que caiu no Tour e ao seu irmão mais novo que não diz nada mas anda que se farta. Igor Antón e Mosquera são ciclistas que tentarão lutar pelo pódio, Joaquim Rodriguéz tentará somar o máximo de pontos para o Ranking Mundial, Luis León Sánchez tentará mais uma vez mostrar que pode discutir uma grande volta (não acredito, mas ok), o seu colega Arroyo estará super-motivado depois do 2º lugar no Giro, Vandevelde participará na terceira grande volta do ano tentado não abandonar esta lesionado, Tondo é uma incógnita depois de tanto tempo quase sem correr mas passado em altitude e Sastre diz que se sente bem como dizia antes do medíocre Giro e do medíocre Tour.
Intxausti é um jovem sobre o qual tenho algumas ilusões, tal como com o Van Garderen. O Peraud também me desperta alguma curiosidade por ser a primeira vez que participa numa prova de 3 semanas mas já ter dado boas indicações no início do ano e quero ver do que é capaz o Roche depois de um Tour de grande nível.
Para o sprint, teremos os olhos no nosso português Manuel Cardoso mas a tarefa não será fácil contra Cavendish, Petacchi, Hushovd, Farrar, Bennati, Freire, Allan Davis, Koldo Fernández e Hondo.
Ah, e este ano há duas semanas entre o final da Vuelta e os Mundiais, por isso haverá menos desistências a pensar nos Mundiais.
Estou apenas a lançar estes nomes todos para se ter uma ideia da qualidade desta Vuelta e o que se pode esperar de alguns homens. Não esperem que faça como aqueles que falam em 180 ciclistas e no final dizem “eu bem que tinha falado nele”. Ah, e acreditam que eu já li que esta Vuelta tinha um pelotão fraco?
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A pouco mais de um mês dos Mundiais, já se sabe quem são os convocados de vários países. De Portugal, oficialmente, nem se sabe os pré-convocados. Penso que está na hora da Federação apostar minimamente nas relações públicas. O trabalho que tem sido feito é muito pobre e basta olhar para o que se faz aqui ao lado, em Espanha. Por exemplo, a Federação está a trabalhar na selecção de pista e não se sabe de quase nada a não ser pelo diz-que-disse. De qualquer forma, não estejam à espera que eu diga o que se devia fazer. O que posso dizer sim é quem acho que vai aos mundiais.
Tomando Manuel Cardoso, Tiago Machado, Rui Costa e Sérgio Paulinho como certos, as outras duas vagas deveriam ser decididas entre Hernâni Brôco, André Cardoso, Ricardo Mestre, Sérgio Ribeiro e Cândido Barbosa. Os três primeiros por ainda serem opção para vários anos, terem feito uma boa temporada e serem ciclistas com muito fundo e os dois últimos por se adaptarem melhor a um circuito como o australiano. Mas quanto ao Cândido, já sabemos que não corre fora das fronteiras, e segundo sei, o Sérgio não está sequer pré-convocado.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Balanço da IV Volta de Blanco

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Terminou ontem mais uma Volta, a 4ª de David Blanco. E se algo é comum a todas as Voltas por si vencidas, é que foi o melhor ciclista. Umas com mais concorrência, outras com menos, umas com mais montanha, outras com menos, umas ganhas a subir, outras no contra-relógio… mas foi o melhor em todas elas. Por isso há pouco a dizer quanto à sua vitória.
A Palmeiras Resort-Tavira apostou (quase) tudo no Blanco e, por isso, acaba a Volta com balanço altamente positivo. Faltou apenas o Cândido ganhar uma etapa na estrada.
A segunda melhor equipa foi a Barbot-Siper, que venceu quatro etapas, a camisola branca, a classificação colectiva e teve o 2º classificado na geral. Embora alguns ciclistas tenham estado abaixo das expectativas, outros fizeram uma grande prova. A outra equipa portuguesa com sinal positivo foi a LA-Rota dos Móveis. Como o Hernâni Brôco se tornou o melhor português desde a Srª da Graça, a equipa teve esse destaque com o qual não contava. Tal como na Barbot, alguns ciclistas desiludiram (claro que não estou a falar do Mendes, que estava em recuperação).
Entre as estrangeiras, as melhores foram a Saur-Sojasun e a Caja Rural. Ambas venceram duas etapas (para a Saur seriam três se não fosse a desclassificação patética no último dia) e tiveram a camisola amarela, a equipa francesa por um dia e a espanhola por dois dias. A Caja Rural teve um destaque muito bom quase todos os dias, sobretudo graças à excelente prestação do Chuzhda, que poderia ter vencido a classificação da montanha se a etapa da Torre não fosse afectada pelos incêndios ou se a Madeinox não corresse ao estilo “nós não ganhamos, vocês também não”. Só por isso se entende tamanho esforço para roubar pontos ao ucraniano quando já não tinham hipóteses de lutar por esta classificação. E por falar nesta equipa, foi das portuguesas com balanço negativo, a par de Loulé. No caso do Boavista, excepção para o João Benta e o Petrov nalgumas etapas e para a camisola da juventude no Vilela durante tantos dias. No caso do Loulé só o Daniel Silva foi mesmo excepção e, mesmo assim, nem uma nem outra formação conseguiu colocar alguém nos dez primeiros da geral.
Quanto à ISD, à Carmiooro e à Xacobeo, bem tentaram várias vezes mas sem conseguir alcançar algo palpável. De qualquer forma, foram equipas que animaram a prova. A Amore & Vita também ainda animou algumas etapas mas nada de mais, e a Lampre, a Andalucia e a Bbox nada fizeram que merecesse nota, embora a Lampre levasse a camisola da juventude.
Por fim, as duas equipas jovens. Da Rabobank sub-23 eu esperava mais, mas, vendo bem, era difícil pedir mais a ciclistas tão jovens e, ainda por cima, tão longe de estarem habituados a estas temperaturas. Por parte da selecção portuguesa, tudo o que viesse era lucro. Cinco deles são jovens talentosos (uns mais do que outros, claro) que estavam lá para ganhar experiência e os outros quatro são elites que não conseguiram chegar a profissionais por alguma razão.
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No dia 15 (quando acabou a Volta) fecharam os rankings de apuramento para os Mundiais. Portugal levará 6 ciclistas elites, o que é uma vitória tendo em conta que apenas foram 3 no ano passado. Nos sub-23, 5 já são certos e poderá haver mais uma vaga dependendo da Volta a França do Futuro, embora não seja de contar com ela.
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Houve 28 candidaturas para equipas continentais profissionais. Será alguma portuguesa? Os de Paredes dizem que querem.

domingo, 15 de agosto de 2010

Para os comissários corarem de vergonha

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A etapa de hoje tinha tudo para não ter interesse e eu já tinha pensado em dedicar pouco espaço à etapa e deixar para mais tarde um balanço geral. Afinal, os comissários deram um interesse suplementar à tirada. Possivelmente, esta é a primeira vez (pelo menos nos últimos muitos anos) em que há uma desclassificação de alguém que vem de trás. Normalmente, o sprint irregular é de alguém que vai na frente e corta a trajectória dos seus adversários. Hoje, o sprint foi irregular por algo que só os comissários saberão. Enfim, o Cândido tinha que ganhar de alguma forma. Pena ser de uma forma tão estapafúrdia, apesar dele não ter culpa (a não ser que tenha protestado).
Uma análise mas detalhada deixarei para amanhã, porque há muito para dizer. Por agora, parabéns aos vencedores e todos aqueles que têm motivos para festejar. Principalmente ao David Blanco, que vence a sua 4ª Volta por mérito próprio e com classe. A minha favorita continua a ser a de 2008, vencida na Torre, embora tenha deixado em 2º lugar um grande amigo meu.
Hoje, opto por abordar outros temas. Como as Lições de Carácter por um Puertista Suspenso por Doping e o regresso dum campeão português.
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Os irmãos Nozal são duas figuras engraçadas, não por gostarem de fazer piadas mas sim porque têm tendência para, mesmo falando sério, darem vontade de rir. O mais novo, Carlos, não nasceu com grande talento para ciclista, mas como o irmão tinha jeito e estava na ONCE, o Carlos foi para a filial sub-23 da equipa. O afastamento da empresa ONCE do ciclismo foi a sorte do Nozal mais novo. A empresa Liberty Seguros pegou na equipa de Manolo Saiz e entrou como patrocinador da equipa de Américo Silva, levando Sérgio Paulinho e Nuno Ribeiro para Espanha e trazendo para Portugal dois jovens da cantera. Um deles foi o tal pouco prendado Nozal e o outro o Jordi Grau, um ciclista de qualidade que foi afastado da equipa por motivos que nunca cheguei a conhecer.
Sempre medíocre, dava nas vistas de vez em quando numa fuga, tendo inclusive vencido uma etapa da Volta a Portugal em 2006, uma Volta pessimamente disputada no seu geral. Mesmo assim, o Carlitos achava-se bom demais para o pelotão português, onde, segundo ele, se corre como amadores. Quanto a mim, acho que o pelotão português é que era demais para este Nozal.
Quanto ao irmão Isidro, era realmente um ciclista de qualidade até 2004. Inexplicavelmente, em 2005 deixou de render e no ano seguinte a sua carreira começou a caminhar rumo à auto-destruição quando o seu nome surgiu na Operação Puerto associado a hormona de crescimento e EPO. Por isso, foi corrido da equipa no final do ano e só a Karpin-Galicia o quis. Como nas principais provas ninguém queria os Puertistas (excepto o Valverde), teve que ficar de fora da Vuelta e, como não podia correr a Vuelta, não servia para a equipa. No ano seguinte livraram-se dele e veio ter a um país onde sempre se aceitou bem os espanhóis marcados pelo Index do doping. A única vez que o Isidro deu nas vistas foi quando se soube do controlo positivo de CERA na Volta do ano passado.
Agora vem acusar o Hernâni Brôco de falta de carácter porque, segundo ele, não dava garantias de trabalhar para a equipa. Isto tudo porque várias vezes perguntaram ao Hernâni se ficava de fora da Volta na Liberty por se recusar a consumir substâncias dopantes e ele se recusar sempre a responder. Se foi por recusar o doping que o Brôco ficou de fora da Volta, não sei, mas certamente não foi por ter menos qualidade que os irmãos Nozal. Nem por não trabalhar para os seus colegas, porque todos nos lembraremos de quem levou o Cândido às costas na Senhora da Graça em 2005. E na Volta de 2007 (2006 falhou por lesão) também trabalhou, embora dando menos nas vistas porque a equipa era mais forte. E nesta Volta trabalhou logo na 1ª etapa para os sprinters e na 2ª para lançar o Hugo Sabido para uma meta volante e o colocar para a subida final… e além disso, que moral têm os Nozal para falar de carácter?
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Correu-se hoje a Vattenfall Cyclassics, em Hamburgo, com Manuel Cardoso a voltar à competição depois da queda no Tour. Estava bem colocado no pelotão na parte final mas ficou fechado (nada irregular, porém) e foi 26º. Serviu para ver que está a recuperar bem e talvez faça uma boa Vuelta. Vitória para Farrar.

sábado, 14 de agosto de 2010

Surpresas e estranhezas

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Ontem disse eu que a LA deveria ganhar por equipas pois tinha o Brôco, o Sabido, o Filipe Cardoso e o Zé Mendes que, ainda que sendo piores que Bernabeu no contra-relógio, eram todos eles melhores que os restantes homens da Barbot. Enganei-me. Não só porque o Bernabeu fez um contra-relógio surpreendente mas principalmente porque o Rui Sousa se tornou contra-relogista. Convenhamos que não é muito normal o Rui Sousa que todos conhecemos, num contra-relógio tão plano, ser 9º a apenas 1m09. Em 2008, a lutar pelos primeiros lugares e num percurso da mesma distância mas mais acidentado e para as suas características, foi 38º a mais de 4m. Prefiro ficar-me por aqui.
O Blanco manteve a sua liderança sem grandes problemas e amanhã estará de amarelo em Lisboa como se esperava deste o momento em que se viu a lista de inscritos. O Bernabeu será 2º, o Pardilla 3º, o Sinkewitz 4º e o Brôco 5º. Estiveram os 4 em grande nível apesar do Bernabeu falhar o objectivo de vencer, coisa em que eu nunca acreditei.
O Mestre, mesmo a trabalhar para os colegas e por isso abdicando da sua classificação nas etapas mais duras, termina em 8º, dando alguma razão ao que eu dizia à partida de ser ciclista para lutar pelo pódio quando for líder. No contra-relógio de hoje foi 12º.
Com o Ricardo Vilela a perder a camisola da juventude, a Madeinox-Boavista perde o seu abono desta Volta. A não ser que surpreenda toda a gente amanhã, é uma Volta muito fraquinha. Exceptuando o João Benta na Senhora da Graça e o Sérgio Sousa em Santo Tirso, o destaque foi nulo. Houve ciclistas a mostrar que nunca deviam ter passado a profissionais e outros que já estão muito longe do seu melhor. Mas, entre as portuguesas, a equipa mais fraca foi Loulé. O facto da equipa ter o nome do clube e não do patrocinador mostra bem o nível de conhecimento que há para aqueles lados sobre esta coisa do ciclismo profissional. Os espanhóis estiveram muito mal e os portugueses acompanharam, com excepção de Daniel Silva. Basta olhar para os 9 escolhidos para a Volta e ver que a qualidade não é requisito, apesar de 3 ou 4 ciclistas a terem. Pode ser que alguma destas equipas salve amanhã a sua prestação, mas duvido.
Ah, e claro que não concordo com a existência de prémio da combatividade num contra-relógio. Mais vale que mudem o nome.
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Os irmãos Schleck tornaram oficial que para o ano vão correr na nova equipa luxemburguesa, o que funciona como confirmação de que vai mesmo haver equipa. Apesar de não deverem nada aos irmãos luxemburgueses, Fuglsang, Voigt, O’Grady, Nicki Sorense, Chris Anker Sorensen e Klemme já mostraram interesse em deixar a Saxo Bank para ir para a nova equipa. Entre Contador e Schlecks, já fizeram a sua opção.
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Zubeldia ganhou hoje o Tour de l’Ain, uma prova francesa para a qual apontou baterias depois de saber que não pode ir à Vuelta porque a seu equipa, na visão dos organizadores, não tem qualidade suficiente.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A famosa “chegada à Cândido”

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Há muito tempo que muita gente usa o termo “chegada à Cândido” para classificar um final em que se espera uma chegada ao sprint mas com inclinação suficiente para eliminar os sprinters puros. São casos disso as chegadas a Gouveia e Guarda. Quanto a mim, prefiro usar o termo “chegada à Cândido” para chegadas como a de hoje, a de Fafe em 2008 ou a de Lisboa em 2006. Não interessa como é a estrada. Para mim, “chegada à Cândido” é como hoje, quando se começa dum lado da estrada, fecha-se os adversários no outro lado e se volta ao lado inicial.
Em 2006, em Lisboa, era um sprint massivo e por isso foram muitos os ciclistas prejudicados, principalmente Martín Garrido (que teve que abrandar muito). Depois da desclassificação do Cândido, a vitória foi para um jovem chamado Manuel Cardoso, que começava assim a sua senda de vitórias.
Em 2008, em Fafe, a vítima foi apenas o Francisco Pacheco, mas na altura o Cândido tinha a camisola do Benfica e a mudança de trajectória foi “só” de meia estrada. Dessa vez não houve desclassificação.
Hoje voltou a ser evidente. Começou o sprint no lado direito da estrada, foi para o lado esquerdo fechar o Sérgio Ribeiro (e o Engoulvent) e voltou para a direita. Com a desclassificação da etapa, a classificação por pontos fica praticamente entregue ao Sérgio Ribeiro, que já venceu duas etapas e foi segundo duas vezes, quando vingaram as fugas de Chuzhda, primeiro, e Herrada, depois. Se confirmar a vitória nos pontos, é mais do que justo.
Na geral, tudo igual e para decidir no contra-relógio de amanhã. É sabido que muitos ciclistas abandonam a escola cedo para chegar ao profissionalismo, mas, curiosamente, os dois primeiros da geral têm licenciatura. Além de grandes ciclistas, são inteligentes e grandes pessoas. Merecem o sucesso.
Como já disse, acho que a luta vai ser entre o Brôco, o Bernabeu, o Pardilla e o Sinkewitz, os quatro a lutar pelos 2 lugares que sobram no pódio. Entre eles, acho que o Hernâni e o Bernabeu são os melhores no contra-relógio e que o Pardilla é o mais desfavorecido. Mas vamos esperar para ver.
A montanha já está entregue ao Blanco e a classificação por equipas deverá decidir-se amanhã a favor da LA. Com Brôco, Sabido, Mendes e até mesmo Filipe Cardoso, a LA tem claramente melhor equipa para o contra-relógio do que a Barbot.
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A Abarca Sport já tem patrocinador para os próximos anos. Deixará de ser Caisse d’Epargne e passará a ser Movistar, fazendo o Rui Costa parte da equipa. Deixando o patrocinador de ser francês, a equipa deixará de ser “obrigada” a ter 5 ou 6 franceses por conveniência. Poderá uma dessas vagas ser ocupada por um português que dê nas vistas. Falta agora confirmar se o Manuel Cardoso continua na Footon que será Geox.
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O Carlos Sastre estará na Vuelta, depois de ter estado no Giro e no Tour. Vai à prova pelos mesmos motivos: a equipa, sem ele, é muito fraca. No caso da Vuelta, sem ele, a equipa não iria. Muito mais útil seria a Radioshack de Machado, Brajkovic, Kloden, Leipheimer, Horner, Zubeldia…

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Muy Blanco

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Os incêndios na Serra da Estrela não começaram esta noite e cabia à organização ter uma boa alternativa para o caso de ser impossível subir à Torre pela Seia. Poderia ter encontrado forma da etapa não se tornar tão fácil como se tornou, pois acabamos por ter uma etapa muito curta e totalmente plana até à subida final, que não é assim tão dura. Estiveram bem ao conseguir manter a chegada à Torre mas poderiam ter estado muito melhor.
Não me parece que a subida para Teixeira e Carrazedo colocassem em dificuldades a Palmeiras, mas faria com que menos ciclistas iniciassem a subida para a Torre no grupo principal, entre eles alguns colegas de Blanco. Além disso, o Chuzhda teria duas subidas para somar pontos e se defender na montanha, oportunidade que assim perdeu. Claro que, disso, a organização não tem culpa, nem a quero eu culpabilizar. Apenas pretendo mostrar que existem inúmeras diferenças entre a etapa que se disputou e a que todos esperavam até esta noite.
Mesmo com a tarefa mais facilitada (além de tudo, eram menos 40 km para controlar), o Vidal Fitas surpreendeu. Já o elogiei várias vezes e hoje mais algumas pessoas terão percebido o porquê. Lançou o Cândido Barbosa para a fuga de modo a que este somasse os pontos das metas volantes e a sua equipa não tivesse que trabalhar no pelotão. Resultou na perfeição e o Cândido ganhou 5 pontos de vantagem face ao Sérgio Ribeiro, seu principal rival.
O primeiro a mexer-se foi o Hernâni Brôco mas abdicou logo. Depois atacou o David Bernabeu e obrigou o David Blanco a dar resposta. Talvez muitos não se tenham apercebido da força que o Blanco demonstrou. Assumiu desde cedo o controlo do grupo e foi puxando por ali cima, eliminando cada um dos seus adversários. No final, arrancou para a vitória. O segundo foi o Hernâni Brôco, que mais uma vez mostrou a sua grande capacidade de sofrimento. Foi sempre no elástico, no elástico, no elástico, até ao segundo lugar. O Brôco chega a 5 segundos do Blanco e à frente do Pardilla e do Sinkewitz. Porque não esteve nas duas últimas Voltas a Portugal? Era uma pergunta interessante para se fazer ao Américo Silva, pessoa com a qual sempre me dei bem mas não posso deixar de criticar neste ponto.
A vitória será para o Blanco, salvo furos ou quedas, como eu já tinha dito antes da prova começar. Brôco parte na frente na luta pelo segundo lugar, Bernabeu a 11s, Pardilla e Sinkewitz a 23 e os outros já muito longe.
Eu já tinha dito que esta Volta não dava para fazer diferenças e está á vista: o 10º classificado está a 2m38 e não é só devido aos incêndios de hoje.
Amanhã será o Cândido e o Sérgio Ribeiro a lutar pelos pontos para a camisola branca, muita gente a tentar vencer a etapa em fuga e o Chuzhda a tentar aproximar-se do Blanco na verde. Nas equipas também há um grande equilíbrio (LA 1º e Barbot a 2s) mas só se deverá decidir no contra-relógio, com vantagem para os de Paredes.
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Ontem não comentei o facto do Zé Mendes ter ganho o prémio da combatividade, mas hoje tenho que comentar. Apesar de ser um grande ciclista e eu preferir que fosse ele a vencer a etapa, não merecia o prémio da combatividade, como hoje não merecia o Nelson Oliveira. Critica-se os franceses por, em caso de dúvida, premiarem os ciclistas franceses, mas em Portugal, mesmo quando não há dúvida, entrega-se a um português. Ontem era para o Ortega e hoje para o Borisov.
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E por falar em franceses, algumas pessoas já devem ter reparado que os comentadores da RTP não dizem Casper e Sojasun como os da Eurosport. Pois é, estão habituados a ouvir mal. Os da RTP estão correctos.
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Para finalizar, faço referência a algo que ouvi no final da transmissão da RTP. Um jornalista perguntou ao director de Paredes porque o Hernâni Brôco não ia à Volta na anterior equipa. O Mário Rocha está a fazer um bocado o papel de “o grande director desportivo que redescobriu o Hernâni Brôco e lhe deu uma oportunidade”. Eu tenho uma pergunta que acho mais interessante: porque razão, antes da Volta, o Hernâni era só a terceira opção da equipa, atrás do Sabido e do Zé Mendes a recuperar da fractura de clavícula?

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Tudo a pensar na Torre e até o Ortega ganhou

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A etapa de ontem da Volta terminava em Lamego, numa contagem de 2ª categoria que só existe para a prova parecer dura. Venceu, em fuga, o José Herrada da Caja Rural, a equipa mais combativa até ao momento e à qual temos que agradecer por vir ao nosso país com tantas ganas. Logo atrás chegou o pelotão (quase 50 ciclistas numa 2ª categoria), com o Sérgio Ribeiro a reconquistar a camisola branca. Isto, depois da sua equipa trabalhar no pelotão, inclusive com David Bernabeu. Foi como admitir que ele não tem capacidade para chegar à amarela do Blanco e mais vale colaborar para tentar vencer uma etapa (a equipa já tinha uma, não precisava assim tanto de outra). Uma etapa que não merece mais que um parágrafo.
A etapa de hoje era daquelas bem aborrecidas, que contribuem para a ideia de que o ciclismo é uma seca em que só interessa o final. Em véspera de chegada à Torre, 220 km para uma fuga vingar e eu ir para a praia. Nem me lembrei de meter a gravar.
Tendo em conta os comentários da internet e os directos que por aí há, foi tudo como manda a regra: se és rápido, espera pelo sprint, se não és, ataca de longe. Assim, a vitória foi para um dos ciclistas mais fracos deste pelotão, o Joaquin Ortega, que tem como principal característica ser amigo do Bernabeu. Com 25 anos, passou a profissional na Fuerteventura do amigo mas a equipa acabou porque foi um fiasco e ele foi para o pelotão amador porque não tinha grande talento para a modalidade. Com 28 anos, voltou a ser profissional, agora na Barbot do amigo Bernabeu novamente, e tem feito uma época miserável. Logo no Algarve, mostrou que não se dava bem com subidas, contra-relógio nem sprints e foi último.
Antes desta etapa, tinha quatro ciclistas atrás de si na geral e era um espanhol pouco talentoso que ocupava o lugar de um português no pelotão profissional. Depois dela, continua a ter pouca qualidade e a ocupar o lugar de um português mas tem uma etapa na Volta e temos que levar com ele para o próximo ano. Tinha sido tão bom o Zé Mendes ganhar…
Amanhã Torre. Esperemos que seja uma daquelas grandes etapas, como às vezes temos. De qualquer forma, será a penúltima na luta pela geral e pode decidir a montanha.
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Ontem descobri que a transmissão televisiva começa uma hora mais cedo na RTP N. Deixo aqui a nota porque ouvir o Marco Chagas é um prazer e uma forma de aprender sempre mais.
Foi aí que ouvi que o CEO da Liberty Seguros em Portugal terá confirmado a ideia de voltar ao ciclismo profissional já em 2011 e gostaria de ter o Cândido Barbsoa como director desportivo. Ter mais uma equipa é uma excelente notícia. Além disso, o ciclismo português tem muito a agradecer à Liberty Seguros e aos seus directores em Portugal, principalmente o Dr. José António de Sousa, que adora a modalidade. Por isso decidiu patrocinar este ano a Federação, embora não me pareça bem uma empresa patrocinar uma equipa (Stª Mª da Feira) e a selecção, nem me pareça bem haver uma selecção na Volta a Portugal, tema sobre o qual há muito a dizer. Mas a Federação não podia recusar isto, principalmente sabendo que a Liberty queria voltar a ter uma equipa profissional.
À parte disso, preferia que essa equipa da Liberty fosse dirigida pelo Manuel Correia, que tão bem dirige a equipa feirense.

domingo, 8 de agosto de 2010

A lei que a Palmeiras ditou

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Como eu já tinha dito, o Blanco era o super-favorito, em parte, por ter uma excelente equipa e um director desportivo que não facilita a vida aos adversários e assume o favoritismo. Assim foi desde 2008 e hoje não foi diferente. Porque estava em viagem, só acompanhei deste o final da subida para Campanhó, e mesmo assim ainda vi o Marque e o Livramento a trabalharem num primeiro momento, depois o Mestre e o Nelson Vitorino na subida para a meta e, finalmente, o André Cardoso a deixar toda a gente para trás, excepto o Blanco, claro, ao estilo Navarro-Contador, mas sem Andy Schleck.
O Blanco confirmou estar melhor que todos os outros a subir e ganhou algum tempo (mais os 10s de bonificação). Quanto àqueles que se diziam candidatos à vitória e eu apenas os considerava candidatos ao pódio, o Bernabeu perdeu 21 segundos (11 meta + 10 bonificação), o Pardilla 52 e o Santi Pérez mais de 2 minutos. O Sella já mostrou na Srª da Assunção que não está em forma, tal como o Kashechkin, mas desse nunca esperei que desse nas vistas nesta Volta, embora fosse um nome a mencionar à partida pelo seu passado.
Grandes subidas do Hernâni Brôco, do Daniel Silva e do João Benta, embora, destes três, só o Daniel Silva me tenha surpreendido. A Barbot tem o Bernabeu com apenas 1s de vantagem para o 3º e o Rui Sousa com hipóteses de complicar as contas; a LA-Paredes tem o Brôco na luta pelo pódio mas terá que passar a liderança para ele (que até agora, era a 3ª ou 4ª aposta da equipa, coisa que não consigo entender); a Madeinox tem o João Benta para defender um lugar nos 10 primeiros; e a Loulé cabe lutar por tentar meter lá alguém. O Sinkewitz e o Pardilla foram os melhores de equipas estrangeiras, com uma diferença: o Sinkewitz já sabe o que é a Volta e o Pardilla, subestimando a concorrência, atacou logo no início da subida. Para a Volta, é fundamental saber que as equipas portuguesas apostam o ano todo nesta prova.
Amanhã descanso e terça uma etapa que não será muito dura mas poderá fazer pequenas diferenças. E há sempre as bonificações.
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A chegada a Viana do Castelo, naquele sítio, foi de amadores. Quem a colocou lá, estava distraído. Não se mete uma chegada para sprint apenas 150m depois de uma curva daquelas. O resultado foram quedas, claro.
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No Mundial de juniores, Rafael Reis foi sétimo, no grupo principal. Nos últimos anos não houve nenhum júnior melhor que ele no pelotão português.
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Na Volta a Portugal de Cadetes, ganhou o João Gomes. Quem ganha 2 de 3 etapas fugido, não deixa dúvidas quanto à justiça da vitória.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Volta: A história do costume

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Depois de um prólogo sem interesse desportivo, a primeira etapa foi precisamente o contrário devido à fuga do Chuzhda. Ao contrário do que muita gente defende, eu não acho que dar 15 minutos a três ciclistas a 140 quilómetros da meta, seja um perigo. O problema foi depois, quando chegou a hora de anular a diferença e nenhuma equipa (excepto a Palmeiras) se mostrou interessada em assumir a perseguição. E a Palmeiras, por ter o Blanco, não era a única a ter que trabalhar. Sendo a Palmeiras a equipa mais forte, é aquela que, à partida, terá mais possibilidades de ganhar etapas e a geral. Por isso mesmo, sendo a chegada como era, a Madeinox tinha que trabalhar para o Petrov poder vencer, a LA-Paredes para o Filipe Cardoso poder chegar à amarela e a Barbot porque tinha o Sérgio Ribeiro. Para além disto, se a Barbot quer ganhar com o Bernabeu e o Loulé com o Santi Pérez, não podem facilitar tanto. Infelizmente, já estamos habituados a isto das equipas portuguesas sacudirem as responsabilidades umas para as outras. Excepção tem sido a Palmeiras, que nos últimos anos, sempre que teve que trabalhar, trabalhou.
E a maior derrotada acabou por ser mesmo a Barbot, porque tinha um homem na fuga certa e ele não aguentou e porque perdeu a possibilidade do Sérgio Ribeiro vencer uma etapa. Caso o tivesse conseguido, garantia de imediato o saldo positivo da Volta, mas assim habilitou-se a não ter tão boa oportunidade até ao final. Felizmente para eles, o Sérgio conseguiu aguentar hoje a subida, vencer a etapa (a sua primeira na Volta) e safar, desde já, esta participação da equipa.
A subida para a Srª da Assunção foi sempre controlada pela Palmeiras, que tinha, com Cândido Barbosa, fortes possibilidades de vencer e, para isso, levou o grupo principal num ritmo constante. Eles sabiam que não tinham que ir ao choque mas sim manter o ritmo para que o Cândido estivesse lá na parte final e pudesse lançar o seu sprint. Mas, ao levar o grupo em ritmo constante, também saiu beneficiado o Serginho, que não é um trepador mas passa bem as subidas curtas.
Se, por um lado, o Cândido não deu a etapa aos de Tavira, o Blanco ganhou 6 segundos de bonificação, mais alguns a todos os adversários e meteu tudo em sentido. Entre aqueles que eram apontados pela comunicação social como favoritos, o Pardilla perdeu 8s (a contar com bonificações) para o Blanco, o Bernabeu 11s e Santi Pérez 14s. Surpreendeu-me o Vítor Rodrigues em 5º, pois é um excelente corredor mas tem tido uma temporada atribulada e eu não sabia até que ponto ele estaria em forma. Felizmente, está. Também gostei de ver o Broco em 7º e o João Benta em 9º, a mostrarem que estão em forma para lutar pelos seus objectivos. Assim como gostei de ver o Sérgio Sousa ao ataque na parte final e, antes dele, o Gustavo Rodriguez, que já passou por Portugal sem conseguirem aproveitar todo o seu valor. E muito bem também o Joni Brandão, um sub-23 de 3º anos que hoje foi 17º. Ao contrário, esperava mais do Hugo Sabido e do Bruno Pires.
Amanhã, etapa para sprint ou fuga, com os favoritos à geral a pouparem-se para a Srª da Graça no dia seguinte.
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Ontem foi impossível escrever algo pois foi dia de viagem para vir acompanhar a Volta a Portugal de Cadetes. Hoje vi algo incrível. Um miúdo caiu nos primeiros 10 km, desistiu logo, fez toda a etapa no carro de apoio neutro e, quando se preparava para ir ao hospital, foi chamado para ir ao controlo anti-doping porque lhe tinha calhado no sorteio. Não seria melhor o sorteio ser só para os primeiros 15 ou 20? É que, uma vez que não se pode controlar todos, mais vale controlar quem anda na frente.
Outra coisa que me vez rir. A organização protestou (e com razão) que o policiamento é caro, mas havia uma forma simples de poupar. A etapa de hoje tinha, teoricamente 77 km. Os conta-quilómetros dos miúdos marcaram 69. Ou seja, hoje pagaram 8 km extra de policiamento, já para não falar da quantidade de motas que anda antes da cabeça de corrida, sabe-se lá para quê.
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Nos Mundiais de Juniores, a disputar na Itália, o Rafael Reis foi hoje sexto no contra-relógio. Independentemente do que acontecer no futuro, é um júnior de classe mundial.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Por mais voltas que se dê, Blanco

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Além de ser um grande ciclista e triplo vencedor da Volta a Portugal, David Blanco tem sempre um discurso bem-disposto e correcto. Todos guardamos na memória façanhas e declarações de desportistas e, quanto a declarações, são habituais as desculpas. Ou pela hora, ou pelas cãibras, ou pelo vento, ou pelo calor… Quanto ao Blanco, lembro-me precisamente do contrário. Na Volta a 2007, depois de perder mais de 3 minutos na Torre, foi claro como a água e disse que não tinha tido força para os outros. Sem desculpas, como deveria ser habitual, mas não é.
Hoje, durante a apresentação da Volta, teve que falar (ele que diz que não gosta de falar em público e fica com vergonha) e falou no seu português, que não é perfeito mas no qual se nota o esforço e se agradece. Aliás, numa das primeiras vezes que falei com ele, falava eu castelhano (possivelmente, com muitos erros) e disse-me ele para eu falar em português porque ele percebia e estávamos em Portugal. Impensável no futebol, por exemplo.
Voltando à conversa de hoje na RTP, disse que era uma falta de respeito para com os outros ciclistas dizer que ele é o único candidato e que vai ganhar facilmente. Acrescentou que há o Santi Pérez, o Bernabeu, o Pardilla, o Sella… e o Cândido é colega.
Pela minha parte, atribuo-lhe todo o favoritismo para a vitória. Claro que pode ter uma queda (espero que não) ou um furo, mas em situação normal, ganha ele. Aliás, no ano passado, furou na Torre e mesmo assim ganhou… a etapa e a Volta.
E por muito que me custe, vejo favoritos aos primeiros lugares mas nenhum ao primeiro. Dos últimos anos, por diferentes motivos, muitas das principais figuras estão ausentes. Xavier Tondo, Tiago Machado, Ruben Plaza, Juanjo Cobo, Koldo Gil, Héctor Guerra, Eladio Jimenez, Nuno Ribeiro, João Cabreira, Francisco Mancebo… Fica David Bernabeu, que, em situação normal, perde tempo para Blanco na montanha e no contra-relógio. E por falar em Barbot, olhando para a equipa, acho estranho o Bruno Lima ficar de fora. Tal como acho estranho o Carlos Pinho não ter lugar nesta equipa. Isto por motivos desportivos, claro, porque por outros motivos talvez se entenda. Quanto aos que lá estão, o Rui Sousa e o Bruno Pires também são ciclistas para top-10.
Quanto ao Santi Pérez, é bom para ficar nos primeiros e lutar pelo pódio, mas daí até ganhar… Em Paredes, para os dez primeiros, há o Hernâni Brôco, o Sabido e, se estiver bem recuperado, o Mendes. Quanto à Madeinox, vamos ver. Têm vários ciclistas para tentar surpreender mas nenhuma aposta certa.
Porque acho que vão ser os portugueses a animar as etapas, chamo a atenção para Hélder Oliveira, Celestino Pinho, Márcio Barbosa, João Benta, Sérgio Sousa e Ricardo Vilela, cada um à sua maneira, claro. Para os sprints, Cândido Barbosa, Caldeira, Sérgio Ribeiro, Filipe Cardoso, Bruno Sancho e Edgar Pinto. Dos estrangeiros, amanhã falarei, já que a etapa terá pouco assunto.
Mas falta falar noutros homens do Palmeiras. André Cardoso e Nelson Vitorino foram 5º e 6º (excluído quem por doping foi excluído) e podem andar lá perto novamente, embora tenham que trabalhar. E, além de outros ciclistas que fazem um óptimo trabalho de equipa, há o Ricardo Mestre. Acredito que, quando tenha que assumir o papel de líder de uma equipa, lutará pelo pódio.
Por fim, desejo que nesta Volta não haja tanto doping como em 2009. Alterar 4 vencedores de etapa, o vencedor da geral, 3 ciclistas nos dez primeiros e a classificação da montanha, é de mais.

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