Somos raros. Gostamos e seguimos um desporto em que se luta pela transparência. Na televisão, vemos notícias de futebol, uma organização ao estilo de Don Vito Corleone ou qualquer outro mafioso: “não te cobro nada, ficas a dever-me um favor e pagas-me quando eu decidir”. A esse tema, já lá vamos, porque vai dar uma grande volta e antes vamos à Vuelta.
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É bem mais interessante e uma das minhas corridas favoritas. Pouco vi do contra-relógio nocturno mas quem viu na estrada diz que foi um espectáculo. De qualquer forma, primeira camisola vermelha para Cavendish, que no dia seguinte perdeu a etapa para Hutarovich. Que seja desconhecido por alguns adeptos, é normal. Que seja desconhecido de jornalistas de ciclismo, não, de forma alguma. Quando se tem 6 ou 7 dos melhores sprinters mundiais presentes e ganha o Hutarovich, pode chamar-se de surpresa, mas daí até dizer que ganhou um desconhecido vai uma boa diferença. Sendo 5º, o Manuel Cardoso mostrou que tem capacidade para estar entre os melhores sprinters, algo que nós já sabíamos.
A etapa de ontem vem no seguimento duma política que gosto na Vuelta e bem precisava de ser seguida pelo Giro: não dar muitos quilómetros a etapas que não precisam de muitos quilómetros. Se se sabe de antemão que a etapa é para uma fuga inicial ser alcançada perto do fim, qual a diferença entre ter 200-230 ou 150-185 km? A diferença é que é menos uma hora de seca para os ciclistas e adeptos e média mais alta. Os números falam por si: no Giro eram 9 etapas com mais de 200 km, na Vuelta são apenas 2 com mais de 200 e apenas 4 com mais de 190 km.
Vitória de um super Gilbert que quer ganhar o Mundial mas se calhar antecipou-se no pico de forma. Hoje, mais uma etapa com final numa colina, agora com vitória de Anton, um rapaz de 27 que em 2008 estava a lutar pelos primeiros lugares da prova e em grande forma mas caiu na etapa do Angliru. Este ano, já bateu o Contador na montanha, na Volta a Castela e Leão, o que mostra bem a sua qualidade. Olho com ele!
Destas duas etapas com um pouco de dificuldade, nós saímos com algumas indicações e o Gilbert sai com a liderança (para o Record, é um ciclista francês. Aqui deixo o link, mas quando lá forem é provável que já esteja corrigido. De qualquer forma, é esperar para ver o que vem amanhã na edição impressa.).
Nestas duas etapas, além do Antón, também o Joaquim Rodríguez e o Nibali se mostraram em forma e o Menchov, o Frank Schleck e o Mosquera estiveram dentro do esperado. O Kreuziger ficou para trás hoje a descer e o Andy Schleck perdeu uma enormidade de tempo mas, tendo em conta que já tinha dito que não estava em Espanha para disputar a geral, nada de estranho, embora eu acreditasse que ele demoraria mais tempo a mostrar a falta de forma.
No Tondo não se nota a falta de competição, enquanto o seu colega Sastre se faz notar pela falta de capacidade (pelo menos, actual) que todos já deviam esperar.
Do Vandevelde e o Intxausti esperava mais mas não estão praí virados, ao contrário de Roche, Van Garderen e Peraud, que me despertavam alguma curiosidade e têm estado bem (muito bem no caso dos 2 primeiros).
Para acabar o tema Vuelta por hoje: seguem-se três etapas para sprinters. Carrega Manel!
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Voltemos ao tema inicial. Uma marca do ciclismo é a sua luta contra o doping. Citando de cabeça um amigo meu (Daniel Sánchez, RP da Footon), “o ciclismo é mais limpo que os outros porque luta como nenhum e para mim isso é indesmentível”. Citando alguém do meio do ciclismo (não digo o nome porque não tenho a certeza), “se a GNR fizer 100 testes do balão, tem mais hipóteses de apanhar alguém do que se fizer 10”. É isto que se passa no ciclismo. Ou melhor, no ciclismo não se passa nada. Passa-se é na generalidade dos desportos, como no futebol, onde quase nada se faz contra o doping e, quando se faz, são todos amigos contra a ADoP e o Luís Horta. Por o Carlos Queiroz ter mandado a brigada anti-doping ir fazer as análises para a zona vaginal da mãe do Luís Horta em palavreado menos simpático, até o Luís Filipe Vieira e o Pinto da Costa são testemunhas de defesa. No caso do primeiro, tem o Luís Horta como inimigo desde o caso Nuno Assis e no caso do segundo… nada como alguém possuidor de honestidade, honra e outros valores semelhantes.
Quanto à SIC, que já tinha lançado o Gato Fedorento, lançou hoje o Carlos Queiroz para o mundo da comédia através de uma entrevista. Diz que 7h30/7h45, é um horário sem sentido para um controlo surpresa. Quantos ciclistas já foram controlados antes disso? Para o Queiroz, o melhor deve ser agendar uma reunião a combinar hora. Um dos argumentos de defesa que usa é que “estava no sítio errado à hora errada”. Anotem este argumento porque pode ser muito útil. Imaginem que são apanhados no radar a 160 km/h. O que dizem? “Estava no sítio errado à hora errada”.
Diz também que podiam muito bem ter esperado meia hora, uma hora ou até hora e meia. Segundo este professor licenciado e mestre em Educação Física, “não fazia diferença”. Claro que não. Era tempo suficiente para qualquer mascarante. Deve ter tirando um curso como o outro engenheiro.
Por fim, usar como argumento de defesa que o Alex Ferguson (treinador do Manchester United) disse que faria o mesmo ou pior, está ao nível de uma desculpa de escola primária.