sexta-feira, 30 de julho de 2010

Pós-Tour: Volta e transferências.

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Terminado o Tour, as atenções viram-se obrigatoriamente para a Volta a Portugal, cá dentro, e para as grandes transferências, lá fora. Quanto à Volta, parece-me que terá um dos percursos mais acessíveis dos últimos anos, quer pela ausência de dois dias duros consecutivos, quer porque as dificuldades vêm logo nos primeiros dias ou porque as etapas da Srª da Graça e da Torre têm pouca dificuldade prévia. Acessível em termos de dificuldades, porque para um algarvio ou alentejano, a Volta tem pouco de acessível.
Quanto aos participantes, destaque para o super-favoritismo do David Blanco. À partida, é o melhor contra-relogista, um dos melhores trepadores, tem uma excelente equipa e um director desportivo que não facilita a vida aos adversários e assume o favoritismo. Se as equipas portuguesas já são conhecidas de todos, a dúvida está sempre nas estrangeiras, em quem trazem e no que vêm cá fazer. Nessas, há a destacar Kashechkin, Pietropolli, Sinkewitz, Pardilla, Sella, Fran Pacheco, Ángel Vicioso, Bonnet, Casper, Engoulvent. Isto, se vierem cá para mais do que conhecer o país. Aliás, mesmo se quisessem conhecer o país, só poderiam conhecer o Norte. A velha temática.
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À semelhança de 2009, a Barbot anunciou que mantinha o patrocínio para o próximo ano, mesmo antes da Volta, o principal objectivo de cada temporada. Mais do que uma prova de confiança, acho que é a prova de que a grande maioria dos patrocinadores estão no ciclismo porque os seus responsáveis gostam, independentemente dos proveitos que daí tirem. Ainda bem que assim é. Obrigado.
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A Geox decidiu entrar no ciclismo, juntando-se à Footon-Servetto com um patrocínio de 50 milhões para 5 anos. Não sei se os restantes patrocinadores continuarão e quanto dinheiro lá meterão, mas é uma grande ajuda para a equipa do Manuel Cardoso, que assim deverá continuar a ter lugar nas principais corridas.
Sendo a Geox uma marca italiana, a equipa passa a ser sediada em Itália, a olhar mais para as corridas italianas e para os ciclistas italianos. A direcção da equipa deverá continuar a pertencer ao suíço Mauro Gianetti e ao espanhol Matxin, embora se juntem alguns italianos. Segunda a Gazzetta dello Sport, Cunego, Menchov e Rogers podem interessar. Segundo a lógica, os italianos da equipa serão para manter, assim como os principais ciclistas, entre eles Manuel Cardoso. Esperemos que sim.
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Nas primeiras etapas do Tour, o Contador disse que tinha dois presentes para os cazaques: ganhar uma grande volta e assinar um novo contrato pela Astana. Acrescentou ainda que, o segundo presente, deveria chegar primeiro, ou seja, antes do final do Tour, que esperava ganhar. A Astana deu-lhe o contrato que ele querias mas, depois da equipa ter trabalhado para ele, roeu a corda e afinal vai procurar equipa. A do Bjarne Riis é apenas uma possibilidade.
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Os irmãos Schleck já tornaram claro que não continuarão na equipa do Riis. Se sempre avançar uma grande equipa luxemburguesa, irão para lá… digo eu, pela lógica. Eles não se comprometem com ninguém. É melhor assim do que dizer que se vai para um sítio e roer a corda.
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Por fim, até à sua véspera, a Volta a Portugal de Juniores esteve em risco e a de cadetes (a acontecer na próxima semana) ainda está. O motivo é o valor pedido pela GNR para policiamento. Todos sabemos que a GNR tem que pagar inscrições em torneios de futebol de verão e tem que ter o bar abastecido, mas, apesar de o valor ser exagerado, uma organização não pode cancelar a prova na semana em que esta se deveria iniciar. Há toda uma preparação para a prova por parte dos corredores e há hotéis e férias marcadas a contar com isto.

terça-feira, 27 de julho de 2010

E tudo a corrente levou...

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Chegou a altura do habitual balanço do Tour. Mais de 90 horas depois e 20 etapas, apenas 39 segundos distanciaram Schleck e Contador, o número mágico desta edição do Tour.

Pontos positivos (não necessariamente os mais positivos):

- Schleck & Contador - Uma luta saudável entre dois grandes campeões. De longe os melhores do pelotão na montanha e com um nível de qualidade muito, muito similar. Tendo em conta a idade, ainda os espera pelo menos uns 4 ou 5 Tours de altíssimo nível. Promete imenso a sua luta nos próximos tempos e simplesmente não há neste pelotão alguém sequer perto do nível deles. A subida do Tourmalet, sem ser particularmente entusiasmante, foi arrepiante: os dois melhores do mundo, lado a lado, pelo nevoeiro e com centenas de milhares de fãs na estrada... excelente.

- Petacchi, Hushovd & Cavendish - Hushovd podia não estar em grande forma, mas deu uma grande réplica a Petacchi e Cavendish. Duas gerações diferentes e uma merecida vitória do italiano. Já perto do fim da carreira, uma inesperada cereja no topo do bolo.

- Ruben Plaza - Foi 12º, logo atrás de Luis Sanchéz, mas o mais regular da equipa, dado que Sanchéz beneficiou de uma longa fuga para se reposicionar na classificação geral. Ficou a apenas oito segundos do 11º lugar e a menos de três minutos do 8º lugar. Um 3º lugar na Volta a Portugal (a apenas 40º segundos de Blanco é certo) significa 12º no Tour? Dá que pensar se tivéssemos tido regularmente David Blanco ou Hector Guerra nas grandes voltas o que poderiam ter feito.

- Nicolas Roche, Jurgen Van den Broeck, Robert Gesink, Roman Kreuziger - O futuro.

- Sérgio Paulinho - O início de, espera-se, uma longa série de vitórias para o ciclismo português ao mais alto nível.


Pontos negativos:

- Mark Renshaw - Uma vergonha a etapa onde foi desclassificado. Podia ter feito um inteiro pelotão cair pela gula da vitória.

- Camisola da montanha - Tão fraquinho... Charteau, Moreau, Pineau, eles bem andavam pela frente de vez em quando, mas a nível tão longe das grandes façanhas de Virenque ou Rasmussen. E porquê não haver umas subidas de 3ª ou 4ª categoria logo no início? A mais insossa luta das camisolas. Até a classificação por equipas foi mais animada.

- Bradley Wiggins - Eu não sei o que se passou quando ele fez 4º e às vezes prefiro pensar que é melhor nem saber o que aconteceu. Mas adorei especialmente uma entrevista onde ele diz que "I won't do the Giro again, It's just too demanding now. I'm already thinking for next year that the classics-Tour approach might be the way to do it, maybe experimenting with some altitude training as well, because I've never done it.".

- Pavés - Foi uma etapa movimentada e interessante, mas a que custo? Pelo prazer uma etapa, perde-se o prazer de um Tour. Só eliminou o Schleck, mas também fez diferenças que podiam ter mudado o Tour. Se se quer um Tour discutido nas montanhas (senão não haveria 5, 6, 7 etapas de alta montanha), o melhor mesmo é deixar o pavé a ser percorrido nas corridas do costume.

- Radioshack e afins - Sim, a corrida da Radioshack foi mesmo, mesmo fraquinha e o disparate da última etapa das camisolas muito, muito desnecessário. Mas ainda o que me irrita mais é figuras como Floyd Landis ou Greg Lemond ainda terem tempo de antena, ainda fazerem correr tinta... Eu não sei o que move o Lemond contra o Lance e contra o resto do mundo e como ele está do lado do maior mentiroso do ciclismo mundial, mas sim, vamos todos continuar a dar tempo de antena a Landis e a perder tempo...

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A manhã seguinte

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Sendo o Tour a prova mais importante da temporada, para muitos ciclistas é nele que se decide se a época é boa ou má. E tendo o último acabado há menos de 24 horas, é hora de fazer o balanço de um Tour onde Contador e Andy Schleck estiveram muito superiores aos restantes. Ainda se deram ao “luxo” de abdicar de uma chegada em alto para fazer diferenças para os restantes, limitando-se nesse dia a uma triste marcação. O primeiro dos “outros” foi o Menchov, um dos melhores voltistas desta década, que obteve o justíssimo prémio de subir ao pódio de Paris. Já tinha sido terceiro pela desclassificação de Kohl e foi também por uma desclassificação (Heras) que ganhou a sua primeira Vuelta, a de 2005. Seguiu-se a de 2007 e o Giro 2009.
O Samuel Sánchez esteve muito forte nos Alpes mas nos Pirenéus foi incapaz de ganhar tempo ao Menchov para se defender no contra-relógio; o Van Den Broeck e o Gesink foram regulares e confirmaram ser dois ciclistas a ter em conta para o futuro; o Hesjedal foi o Homem Garmin, como o Vandevelde em 2008 e o Wiggins em 2009; o Rodríguez mostrou que, aos 31 anos, já deveria ter mais Tours; o Kreuziger teve duas versões, uma que podia lutar por muito mais do que o 9º lugar, outra que o impediu de faze-lo; o Horner perdeu muito tempo a esperar pelo Armstrong na primeira etapa de montanha mas sem isso não lhe seria concedida a fuga que o meteu nos dez primeiros.
O Luis León Sánchez é um excelente ciclista para provas de uma semana e não tão excelente para provas de três semanas mas luta sempre por uma etapa; o Roche estaria na luta pelo top-10 se não fosse um furo num momento inoportuno.
O Cavendish venceu mais cinco etapas e já leva 15 no Tour, a caminho das 34 de Merckx, mas o Petacchi foi mais regular e levou a camisola verde que o britânico tanto queria. O Charteau levou a camisola da montanha e deixou os organizadores a pensar o que fazer da vida para dar vida a esta camisola e a RadioShack conseguiu, com a vitória na classificação colectiva, fazer com que o balanço se ficasse pelo “muito fraquinho”, já que individualmente, além do Horner, só o Sérgio Paulinho teve nota positiva graças à vitória alcançada. E a camisola branca foi para o Andy Schleck, claro, a terceira consecutiva, a igualar o recorde de Jan Ullrich.
Com duas etapas e dois dias de camisola amarela, Sylvain Chavanel foi o melhor francês num Tour muito positivo para os franceses. Além dele, mais quatro franceses venceram, e desde 1997 que não venciam seis etapas.
Curiosamente, no meio de tantas vitórias gaulesas, foi o Sérgio Paulinho a vencer no dia do feriado nacional francês. Por isso o balanço da sua Volta a França tem que ser positivo. Também o de Rui Costa, porque, apesar de não ter conseguido entrar em grandes fugas como tentou, conseguiu cumprir o seu objectivo: terminar a prova. E na hora de fazer balanços, o que conta é o cumprimento ou não dos objectivos.
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Estamos a partir de hoje no Pós-Lance Armstrong II. O Pós-Lance Armstrong I foi degradante mas este espera-se que seja melhor. Para falar disso, outro dia.
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A Volta a Portugal do Futuro foi mesmo para o Efimkin. Ou melhor, para o Ryabkin, ao estilo Efimkin ’05. Também ao estilo Blanco ’06. As equipas portuguesas a olharem umas para as outras e uma equipa estrangeira a fazer a festa.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Tour para um, etapa e público para outro

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Como se fosse fácil evitar falar da corrente que saltou ao Andy na subida para Balès, a etapa de hoje começou com uma queda do Samuel Sánchez e com o Contador a mandar parar o pelotão. É certo que são situações diferentes, mas quando o Andy ficou parado, Menchov, Samuel Sánchez e Contador não se pouparam a puxar com tudo o que tinham para ganhar tempo. Hoje caiu um deles (Sánchez), ficou muito mal tratado, perdeu rapidamente três minutos e, antes que a equipa do seu principal adversário na luta pelo pódio (Menchov) se mexesse, Contador parou o pelotão. Interessante a forma como ele manipula o pelotão. Na segunda-feira, embora diga que não gosta de ganhar assim, nunca parou de puxar, mesmo não tendo nada a perder para quem ia na frente. Hoje, antes que alguém atacasse o seu compatriota, manda parar o pelotão.
Até começar a subida para o Tourmalet, apenas um ponto de interesse: o Moreau e a Caisse d’Epargne nada fazerem para o veterano francês ganhar a classificação da montanha. Estava a apenas 15 pontos, e não fizeram nada. Não é a primeira vez que simula que vai lutar pela montanha, mas nunca tinha simulado até tão perto do final. A vitória será então para Anthony Charteau. Já nem é preciso ser trepador para ganhar a classificação da montanha no Tour.
No Tourmalet, a tarefa de Andy Schleck era muito complicada. Ele tinha que ganhar tempo ao Contador mas não podiam ficar a sós. Caso levasse Contador consigo, o espanhol não sairia da roda. Foi isso que aconteceu. Schleck atacou a dez quilómetros do fim, Contador foi na roda; Schleck puxou, puxou e voltou a puxar e Contador não cedia. A três quilómetros do final, Contador atacou para mostrar que é o melhor trepador. Schleck foi na roda e a tentativa de Contador foi completamente frustrada. A única coisa que o espanhol conseguiu mostrar foi que, depois de sete quilómetros na roda de Schleck, não o consegue deixar para trás. Contador já não é imbatível, e muito provavelmente já nem é o melhor trepador.
No final, vitória para Schleck, sem sprint, numa tentativa de Contador se redimir do ataque de segunda-feira, quando não viu que Schleck estava com problemas e, depois, até viu mas ia de cabeça quente. Este é o mesmo ciclista que na Vuelta de 2008, na última etapa de montanha, se negou a dar a vitória ao Mosquera. Depois de vencer no Angliru e com o primeiro adversário a três minutos, subiu para Fuentes de Invierno na roda do Mosquera, sem ajudar nada, e no último quilómetro atacou para ganhar tempo e bonificações a Leipheimer, que era seu colega mas um perigo para a geral… pelo menos no seu entender. Hoje deu a etapa a alguém que o puxou tempos e tempos sem fim e que só não é líder porque lhe saltou a corrente quando estava a ganhar vantagem. No final, abraços e um sorriso sincero. Afinal de contas, está de amarelo. «Continuamos grandes amigos, mas a amarela é minha». Se eu encontrar o ticket premiado do euromilhões, também vou ficar muito amigo de quem o deixou cair.
É evidente que eu não sou grande simpatizante do Contador. Pelos mesmos motivos que os franceses o assobiam no pódio, pelos mesmos motivos que “Andy Schleck” e “Schleck” são diariamente as expressões mais utilizadas no Twitter relacionadas com o Tour (e Contador, nem de amarelo, tem mais destaque) e por mais alguns motivos.
Sánchez ainda conseguiu ganhar tempo ao Menchov e vai com 21 segundos para defender no contra-relógio. Já o Luis León Sánchez vai tentar chegar ao top-10, tendo que ganhar mais de dois minutos ao Horner ou ao Kreuziger. Será difícil, mas uma das lutas mais interessantes do contra-relógio, pois o resto está quase tudo entregue.
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Ontem, na primeira etapa da Volta a Portugal do Futuro, dois ciclistas da Caja Rural ganharam 3’33’’ ao pelotão. Está-se a fazer um bom trabalho de formação e já correm como os profissionais. – Trabalha tu. – Não, não. Trabalha tu.
Para dar aumentar o nível poético da cena, ganhou um russo. Como o Efimkin em 2005.
Hoje foram quase vinte corredores numa fuga e deu para recuperar parte do tempo. Amanhã, no Montejunto, logo se vê se a Caja Rural aguenta. As vitórias foram de Alexander Ryabkin e António Carvalho.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Tourmalet, por si só, não faz estragos

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A etapa de hoje foi passada nos Pirenéus mas não era de esperar grandes ataques dos favoritos. Uma coisa que aprendi em pequeno, foi que os favoritos só atacam quando há chegada ao alto ou montanha próxima da meta, e o que me surpreendeu hoje foi algumas pessoas ficarem surpreendidas pela falta de ataques dos principais ciclistas para a geral. Aliás, o Tour do ano passado teve dois bons exemplos, um deles incluindo o Tourmalet… a 70 quilómetros do fim. Curiosamente, nesse dia o vencedor também foi Fédrigo, que venceu Pellizotti ao sprint com 34 segundos para Freire, primeiro no grupo dos favoritos. Ou melhor, favoritos, amigos e conhecidos, porque eram mais de setenta corredores.
Hoje era mais uma dessas etapas que dá vontade de meter a gravar, ir à praia e depois ver a gravação em velocidade aumentado. Não teria qualquer motivo de interesse se não fosse a presença de Lance Armstrong e a consequente grande oportunidade de vencer. É verdade que tinha nove ciclistas consigo mas é sabido que, daqui para a frente, não terá uma oportunidade tão boa de vencer uma etapa no seu segundo último Tour.
Armstrong ainda escolheu a roda certa, a de Fédrigo, mas, quando tentou arrancar para a vitória, foi evidente a falta de velocidade natural de quem tem quase 39 anos. Perdeu-se assim aquele que seria um dos momentos mais marcantes deste Tour e importante para fazer esquecer a corrente do Andy Schleck que saltou e a atitude do Contador, que primeiramente não tinha visto nada e ao final do dia já dizia que possivelmente tinha errado e pedia desculpas. Então mas, se ele não tinha visto, errou no quê? Pede desculpas porquê? Na volta, estava só a mentir e aumentar a lista do Mentiritas de Contador, um livro a editar no futuro. Até o amigo Sérgio Paulinho já se pronunciou contra. “Na minha opinião o Contador esteve mal”.
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E hoje houve qualquer coisa no Velódromo de Sangalhos. A PAD diz que foi o prólogo da Volta a Portugal do Futuro. O regulamento da UCI diz que não. Artº 2.6.006, ponto 2: “O prólogo deve ser disputado a título individual”. Mesmo artigo, ponto 3: “O prólogo tem que contar para a classificação geral individual”. O que se passou no Velódromo foi colectivo e não conta para a geral individual. Prefiro acreditar que esta invenção foi para poupar o dinheiro do policiamento do que pensar que se tirou um dia à prova para vender o ciclismo de pista. O que quer que tenha sido aquilo, ganhou a Mortágua-Basi. Publicidade seja feita a quem investe no ciclismo.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Fair-Play… outros tempos

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Em 2003, já muitas corridas tinha eu visto, vi algo que me marcou no ciclismo e jamais esqueci. A célebre etapa de Luz Ardiden (daí vem a foto), num dos Tours com mais histórias engraçadas dos últimos anos. Lance Armstrong aproveitou o contra-relógio por equipas para passar para a frente de todos os seus adversários, apenas atrás do colega Victor
Hugo Peña, que tinha sido melhor no prólogo por um segundo. A partir daí, viu-se o Armstrong mais fraco dos sete Tours que venceu. No Alpe d’Huez perdeu tempo para Mayo e Vinokourov, na chegada a Ax-3 Domaines perdeu para Ullrich e Zubeldia (vitória de Sastre) e entretanto tinha perdido um contra-relógio. Ele, que nos quatro anos anteriores tinha vencido seis dos sete contra-relógios disputados nos Tour, em 2003 perdeu 1.36 minutos para Ullrich no primeiro crono, e deixou o seu maior adversário de água na boca.
Armstrong tinha apenas 15 segundos de vantagem para Ullrich e 18 para Vinokourov antes da etapa de Luz Ardiden (quando Beloki já estava afastado pela também célebre queda a caminho de Gap). Etapas para recuperar esse tempo, já só havia duas, a de Luz Ardiden e o contra-relógio do penúltimo dia, com 49 km. Na subida para a Luz Ardiden, depois de contra-atacar a investida do basco, Armstrong estava ao ataque com Mayo e Ullrich na roda quando o seu guiador ficou preso a um saco de um adepto. Caiu com Mayo e o Ullrich ficou na frente. O alemão podia ter acelerado, mas limitou-se, numa primeira fase, a manter um ritmo normal e, pouco depois, a esperar pelos caídos
, mesmo para isso tendo que ser alcançado por Hamilton, Basso e outros que seguiam ligeiramente mais atrasados no momento da queda. Não esperou por ser obrigatório mas sim por ser o mais correcto a fazer.
Mayo voltou a atacar, Armstrong voltou a contra-atacar e daquela vez foi sozinho. Venceu com 40 segundos de vantagem para Mayo, Ullrich e Zubeldia e, porque ainda havia bonificações, foi com 1.05 minutos de vantagem para o crono de Nantes.
Relembro esta situação porque hoje houve uma idêntica. Com a camisola amarela, Andy Schleck atacou e estava a ganhar vantagem, mas houve qualquer problema na corrente, Alberto Contador alcançou-o
e foi-se embora. Sem fair-play, sem respeito pelo camisola amarela que estava parado. Talvez porque tomei a etapa de Luz Ardiden como exemplo, ou porque simplesmente cada um tem a sua forma de ver as cosia, tenho uma opinião diferente da já apresentada pelo Diogo (já tinha dito que aqui tem a sua opinião e respeitamos todas elas).

Não se trata de ser justo ou não o seu acto, mas sim de não ter fair-play nem ética. O que quer que diga, eu tenho a etapa gravada e já a revi vezes suficientes. Pouco antes do ataque, ele estava perto do Andy Schleck e não ficou para trás por ter sido surpreendido mas sim por não ter capacidade para ir na roda (é o 2º Astana na 2ª foto, que mostra a distância mesmo com Andy já a parar). Quando o Contador passou pelo Schleck, já o Schleck estava quase parado. O Contador diz que não sabia do problema. Terá pensado que o Andy ia beber café? Que ia desistir?
O Contador chegou à camisola amarela que tanto queria. No pódio foi assobiado pelos adeptos. Contador no pódio para vestir a camisola amarela lembra-me a última Volta ao Algarve, em que ele tirou a camisola das mãos da rapariga que a segurava porque não tinha paciência para esperar. Quando o patrocinador da corrida chegou ao pódio para lhe dar a camisola, já ele a tinha vestido sozinho. Um gesto que não gostei, como não gostaram hoje alguns ciclistas e agentes da modalidade.
Claro que o Fuglsang não é imparcial e não é de admirar que diga que “as ‘palavras’ das pessoas para o Contador estão certas” (referindo-se aos assobios). Mas mais imparcial é o Klöden, que, embora ex-colega de Contador, diz que “não foi uma boa atitude do Alberto”. Mas a opinião com que eu mais concordo é a de Gerard Vroomen, co-fundador da Cervélo (empresa e equipa). Diz ele que “Contador não tinha que esperar. Seria apenas bonito” e que “Contador apenas ganhou uma grande oportunidade de vencer, mas perdeu a oportunidade de vencer com nobreza”.
Já o Andy Schleck diz que a camisola merece honra e que agora só quer olhar para a frente e para novas oportunidades de ataque.

Desportivismo a mais ou a menos ?

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O Tour de Schleck & Contador continuou hoje, na 15ª etapa com chegada a Bagneres-de-Luchon. Tem sido um Tour muito interessante e a bem da verdade, isto sim é um Tour aberto - tanto Schleck como Contador nestes últimos dias têm-se apresentado a um nível muito próximo (e muito alto). Apesar de hoje Contador ter ganho um importante avanço, ainda assim, penso ser justo dizer que a corrida está longe de ter terminado.

A grande questão levantada após a etapa de hoje é, inevitavelmente, o ataque de Contador após o problema mecânico que afligiu Schleck.

Para já, tenho de admitir, antes de dar a minha opinião, que estou a torcer pelo ciclista da Saxo Bank. Não me importo de assumir que quero ver Andy de amarelo nos Campos Elíseos; é um ciclista jovem e ambicioso, tem evoluído imenso. Contador já tem dois Tour's na mão e apesar de dar espectáculo, o estilo do luxemburguês é igualmente apaixonante e parece-me que beneficiou da ausência do irmão, assumindo-se finalmente como líder indiscutível da equipa - algo que lhe tem faltado nos últimos anos.

Ainda assim, acho que anti-desportivo não é Contador ter atacado, anti-desportivo é criticar o ataque de Contador.

O ciclista espanhol está há meses a preparar-se para o Tour. A equipa dele está há meses a preparar-se para o Tour. Eles contrataram vinte ciclistas a pensar no Tour; os cazaques pagam-lhe centenas de milhares de euros para ele ganhar o Tour. Ele passou semanas em reconhecimentos, estágios, treinos. Este é o objectivo do ano, o momento do ano e a única altura do ano onde o ciclismo é visto por fanáticos, fãs e muitos que apenas vêm ciclismo uma vez por ano. É, por excelência, a grande montra publicitária e, obviamente, a grande aposta da maioria das equipas.

Agora, imaginem que recheado de fair-play, Contador hoje esperava por Schleck e perdia o Tour por dez ou quinze segundos. Imaginando que o espanhol está na Rabobank, para facilitar, e encontra-se com o presidente do super banco holandês, o que responderia à pergunta porque não ganhou? Queimou investimentos na ordem das dezenas de milhões de euros em vários anos, queimou o esforço de dezenas de profissionais, desde mecânicos a gregários, porque teve... fair-play? Destruiu a confiança em seu redor porque foi cavalheiro? Não estou a ver o presidente do Banco dar-lhe uma cartola e uma bengala para Contador ser um verdadeiro gentleman inglês, acompanhado por um prémio Simpatia.

O facto de Contador estar na Astana, uma equipa um pouco diferente do habitual, não lhe retira este peso extra, pelo contrário - os cazaques, que apesar de longíquos se dizem grandes fãs de ciclismo, como ficariam de ver a sua equipa perder por um acto de cavalherismo?

Bom, qual seria a reacção do povo holandês se ao minuto 90 da final do Mundial, o Robben estava sozinho frente ao Casillas e, ao ver o guarda-redes espanhol escorregar, parava a bola e esperava que ele se levantasse para rematar? Ridícula Holanda por não ter posto a bola fora quando o Torres caiu no tempo de compensação do Mundial. E o miúdo estava mesmo lesionado!

É fácil e curiosamente estranho que haja comparações futebolísticas desta situação com o habitual "pôr a bola fora" quando um jogador cai. Ainda estou para ver numa FINAL (porque o Tour é a grande final da Champions na versão do Ciclismo), perto do fim (porque a bem dizer, etapas a sério, só há mais duas), uma equipa em desvantagem interromper uma hipótese única de empatar o jogo por dito fair-play. Aliás, quando há golos manifestamente irregulares, nunca vi uma equipa marcar um auto-golo por fair-play. Nunca vi um tenista ceder um ponto porque a bola bateu na tela e passou para o outro lado. Nunca vi um piloto de fórmula 1, na última corrida do Mundial, ver o seu adversário ficar para trás porque teve um problema mecânico e esperar por ele. Nunca vi um basquetebolista falhar lances livres porque a falta foi mal assinalada. Porque raio o ciclismo tem de ser diferente? E reforço, é preciso ser profissionalmente responsável acima de tudo: hoje foi dos momentos mais decisivos da temporada. Os investimentos pagam-se ou perdem-se esta semana. Assim como a Sky perdeu dinheiro com o Wiggins e a BMC com o Evans, Astana, Saxo Bank, Rabobank lucram e trabalharam o ano inteiro para momentos como hoje. O ciclismo tem uma componente de negócio muito importante e o orçamento de uma das maiores equipas é similar ao das grandes equipas portuguesas com uma excepção - quase não tem receitas directas.

E isto na verdade abrange qualquer um de nós com empregos mais normais.

Como dizia Hushovd no dia de Spa: I've been riding all day for the stage win and the green jersey and I end up with nothing," Hushovd continued. "This is not fair. Will the same thing happen tomorrow? Will the times for GC be taken before the pavés sections? If Alberto Contador or another big rider crashes tomorrow on the cobblestones, he's entitled to ask for the race to be neutralised too! So when will we race, really?" O ciclismo é mesmo assim. Ninguém esperou pelo Roche hoje, e se tivesse sido o Samuel Sanchez ou o Menchov, não haveria problemas de falta de cavalherismo de ninguém. Mas como foi o Schleck, é a crise e a polémica. Injusto, não? Fair-play só para os dois que lutam pela geral, mais ninguém?

É fácil lembrar aquela vez que Ullrich esperou por Lance em Luz Ardinen. Foi um gesto notável do ponto de vista moral, desastroso a nível desportivo e irreparável a nível financeiro. Num ano a Team Bianchi esteve no ciclismo e fez zero - podia ter ganho um Tour e Ullrich sai do ciclismo, não propriamente visto como um gentleman, mas como o segundo atrás de Lance. E, se tivesse sido "anti-desportivo", se calhar tinha ganho o Tour. Felizmente poderá contar aos netos que em 2003 foi um sujeito 5*.

É preciso muito esforço para relembrar outro momento desse género, até porque, honestamente, não existem. O azar bate à porta de todos. Faz parte da corrida. Nos contra-relógios alguém abranda porque o outro fura? Ou porque o outro cai? Mas será que um advogado "perdoa" o engano de um colega do outro lado? Será que alguém que concorre num concurso público pede um novo concurso porque o seu adversário teve um problema? O mundo e o desporto encara o imprevisto como inevitável. O ciclismo assim deve ser. Não é uma questão de nobreza. Ou o Lance ganhou de forma menos nobre porque o Beloki e Ullrich caíram em 2003?

Bom, tudo isto para dizer que Contador fez o que qualquer profissional fez. Foi responsável, teve uma oportunidade, aproveitou-a, ganhou tempo e deu um passo importante na classificação geral. Não desperdiçou o trabalho de centenas de pessoas, dezenas de milhões de euros de um país em desenvolvimento por simpatia. Aqui não há simpatias. Isto é o Tour. E assim como em qualquer desporto o que interessa é ganhar - dentro dos limites legais - Contador aproveitou a sorte e ganhou. Mérito a ele. Argumentos morais são sempre bonitos, mas parecem-me claramente injustos e parciais. Senão o ciclismo nunca era a sério, como disse o Hushovd.


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Há momentos, notei que numa casa de apostas as odds de Contador caíram para 1.18 contra 4.75 de Andy Schleck, odds para Contador inferiores para as de Portugal à partida contra o jogo da Coreia do Norte. Mas parece-me cedo para o luxemburguês atirar a toalha ao chão. Menchov aparece a 34; Samuel Sanchez a 67 e Van den Broeck a 201. Odds gigantescas, a provar quão remota é de facto a hipótese de alguém fora Contador e Schleck ganhar. Mas a raiva do luxemburguês pode até dar-lhe força extra para quinta-feira, claramente o dia decisivo. E parece-me que, ganhando a etapa, bastam-lhe apenas 30 segundos de diferença na etapa para ter boas hipóteses de vencer o Tour.

domingo, 18 de julho de 2010

Um ponto para Andy Schleck

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Dir-me-ão que o Contador está em vantagem face ao Andy Schleck porque, no contra-relógio é mais forte e só tem que recuperar 31 segundos. Sim, é verdade, mas mais verdade é que o Contador tem que recuperar esses 31 segundos e no ciclismo não existem certezas a priori. Um exemplo recente disso aconteceu em 2008, quando Cadel Evans partiu para o contra-relógio final no quarto lugar mas a apenas 1.34 minutos de Carlos Sastre, o camisola amarela. No contra-relógio da 4ª etapa, com 30 km, o australiano tinha ganho 1’16’’ e por isso era esperado que, agora com 53 km, recuperasse muito boa parte do atraso que tinha e lutasse pela vitória final. Acabou por ganhar apenas 29 segundos. Esta é a situação mais evidente porque envolve a camisola amarela do Tour, mas outros casos houve, nos últimos anos, de surpresas nos últimos contra-relógios, por motivos físicos e/ou psicológicos. Por um lado, temos a recuperação que é necessária fazer todos os dias durante três semanas e que uns ciclistas fazem melhor do que outros. Por outro lado, temos a reacção à pressão, a motivação e a força extra que a camisola amarela dá. Hoje Schleck venceu Contador pelo psicológico.
Antes desta etapa, Contador disse que, nos Pirenéus, queria passar para a frente de Andy. Além disso, estava motivado pelos dez segundos recuperados na etapa de sexta-feira. Não pela quantidade de tempo mas por ter mostrado que podia deixar o principal adversário para trás, depois de ter sido ele a ficar para trás em Avoriaz.
Hoje a Astana trabalhou e Contador atacou uma e duas vezes sem sucesso. Andy Schleck perdeu 14 segundos para Samuel Sánchez e Denis Menchov, mas mostrou que conseguia aguentar na roda de Contador e que está melhor do que em Mende. Independentemente do que acontecer nos próximos dias, hoje a vitória foi para Schleck, ainda que seja uma vitória curta.
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Quem teve uma vitória clara e justa foi o Christophe Riblon, num daqueles dias que justifica todos os esforços vividos em cima da bicicleta e vale um trunfo importantíssimo para a equipa em relação aos patrocinadores. A Française des Jeux com Sandy Casar e a Ag2r com Riblon já garantiram uma grande Volta a França, como garantirá a Bouygues Telecom se o Anthony Charteau vencer a classificação da montanha. Mas atenção ao Schleck e ao Samuel Sánchez, embora eu não me admire muito se, entre estes três, o vencedor for… outro ciclista.
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E como se não bastasse a vitória do Paulinho em Gap, a selecção nacional arrasou no Campeonato da Europa, disputado na asiática cidade de Ankara, na Turquia. Nos contra-relógio, Rafael Reis foi o melhor tuga em juniores (sexto) e Nelson Oliveira conquistou a medalha de bronze nos sub-23, a 5ª do ciclismo de estrada nacional em Europeus, Mundiais e Jogos Olímpicos. Ontem, na prova em linha de juniores, Rafael Reis conquistou mais uma de bronze e hoje Nelson Oliveira levou a prata. Uma semana incrível para o ciclismo português. Mas não tenham ilusões. O dinheiro será sempre para o triste futebol duma selecção que nunca ganhou nada.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Era uma vez um ciclista que não servia para o Tour

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Em Setembro de 2000, com 21 anos, Manolo Saiz deu-lhe uma oportunidade como estagiário na ONCE e aí ficou mais três anos completos, obtendo as primeiras duas vitórias em 2003, e logo no Paris-Nice e na Vuelta. Não é difícil perceber o porquê da Saunier Duval o contratar em 2004, quando a equipa cântabra se formou e a ONCE teve dificuldades para continuar no pelotão, acabando por se tornar Liberty Seguros. Mais dois bons anos, incluindo a vitória na classificação da montanha da Vuelta ’05, e nova mudança de equipa, agora para a Caisse d’Epargne.
Na Caisse d’Epargne continuou com grandes resultados em clássicas e provas por etapas, mas nem o título nacional de 2007, nem o 6º lugar na Vuelta ’08 foram suficientes para que Eusebio Unzué lhe fizesse a vontade e lhe deixasse correr o Tour. No último ano, com Valverde suspenso por ter sangue numa bolsa encontrada em casa do Eufemiano Fuentes, tudo indicava que Joaquim Rodriguez se estrearia no Tour, mas foi impedido por uma lesão que o afectou durante o Giro. Acabou o ano com um sétimo lugar na Vuelta, a medalha de bronze nos Mundiais e um bilhete para a Rússia.
Assinou pela Katusha com uma condição bem clara: correr o Tour. Até lá, foi 6º no Paris-Nice, ganhou a Volta à sua Catalunha natal, o GP Indurain e foi 3º no País Basco (em que até se defendeu no contra-relógio).
De preparação para o Tour, foi 9º na Volta à Suíça e antes de rumar a Roterdão para cumprir o seu sonho, tão agradecido que estava, renovou com a equipa russa. Na quarta-feira, quando era 9º na geral, disse ser claro que não está ao nível de Contador e Schleck, um gesto de humildade raro quando estamos habituados a que todos digam que vão para ganhar. Disse também que queria acabar nos dez primeiros mas preferia ganhar uma etapa. Também não é muito raro, quando cada vez mais gente prefere ir no autocarro para manter o lugar na geral do que lutar por uma etapa.
Tal como na última Flèche Wallone, hoje bateu o Contador, mas sem o Evans pela frente, e venceu a etapa que tanto queria, na prova que tanto queria. Tem 31 anos e é um debutante no Tour.
Quanto ao Contador, continua sem levantar os braços mas já conseguiu ganhar tempo ao Schleck, aproveitando uma desatenção do camisola amarela. Já é sabido que, se não se for logo na sua roda, torna-se muito difícil. Um dos maiores problemas de Contador continua a ser a inteligência e isso nota-se quando lhe pedem que fale. No final da etapa disse que tinha falado com o Rodríguez para saber se lutavam pela etapa, porque ele [Contador] a queria ganhar. O que esperava de resposta?
Domingo há mais um round para a luta da geral, em Ax 3 Demaines, num Tour em que temos que ter cuidado a usar palavras como “round” e “luta”. Que o digam Robert Hunter, Fuglsang, Carlos Barredo, Rui Costa e Mark Renshaw.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O dia em que Paulinho reescreveu a sua história

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Hoje era uma etapa ideal para fugas. Depois de uma etapa de média montanha e duas de alta, hoje os ciclistas queriam evitar mais um dia desgastante e, além disso, a dureza do percurso tornava impossível que os sprinters aguentassem o ritmo do pelotão se este fosse relativamente alto. A solução passava por dar a etapa a um grupo de fugitivos que não se interessassem pela geral, possibilitando que todos (fugitivos e pelotão) andassem em ritmo de passeio. Por isso, uma etapa sem dificuldades de maior no percurso, tornou-se a mais lenta desde a 17ª de 2008, onde tinham 210 km e três contagens de extra categoria, incluindo o final em L’Alpe d’Huez, vencido por Carlos Sastre.
Sabendo tudo isto, a Caisse d’Epargne tentou meter um homem em fuga e, como José Azevedo disse durante a transmissão da RTP N, a estratégia da RadioShack passava por marcar os homens da equipa espanhola, não os deixando ganhar tempo para a classificação colectiva, o novo objectivo depois de Lance Armstrong dizer adeus à luta pelos primeiros lugares. Felizmente para o ciclismo português, foi o Sérgio Paulinho quem conseguiu entrar na fuga certa. Foi também o Sérgio quem desferiu o ataque que reduziu a frente de corrida a dois e foi ele quem venceu, tornando-se no quarto português a vencer individualmente na Volta a França.
Curiosamente, a primeira vitória da RadioShack aconteceu na Volta ao Algarve (Rosseler em Tavira), a segunda foi de Tiago Machado (contra-relógio do Circuit de la Sarthe) e agora foi um português o primeiro a dar uma vitória em etapa à equipa norte-americana. Outra curiosidade, a vitória do Sérgio Paulinho aconteceu no dia em que se voltou a passar pela descida onde Joseba Beloki caiu e disse adeus aos seus melhores dias como ciclista, não nos esquecendo nós das imagens de José Azevedo parado na estrada junto ao seu colega de então, na ONCE.
Depois dos Jogos Olímpicos e da vitória na Vuelta, o Sérgio tornou-se um ciclista que tem como principal qualidade não se importar de passar toda a época a ir buscar abastecimento ao carro e apanhar um saco para os líderes no abastecimento apeado. Hoje, tornou-se num dos melhores portugueses da história da Volta a França. Reescreveu a sua história e, por isso, os meus parabéns.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Alguém duvidava que o Tour era a dois?

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Algumas pessoas continuam a antever corridas de ciclismo com base no querer dos ciclistas. “Fulano vai atacar porque quer chegar ao pódio”, “beltrano vai atacar porque quer aproveitar esta etapa para ganhar tempo” ou “sicrano vai atacar porque quer mostrar que está forte”. No entanto, o ciclismo é muito mais um desporto de poder do que de querer. As pretensões e estratégias de cada um estão dependentes das suas capacidades. Antes dos Campeonatos Nacionais, dizia-me um amigo ciclista algo como “vai ser preciso ser inteligente e espero que as pernas estejam fortes para eu poder ser inteligente”. Acho que hoje se viu bem isso.
O Fuglsang meteu a nu as fragilidades de muitos e a Astana concluiu o trabalho, nem que para isso tivesse que perseguir o Vinokourov e mostrar que é uma equipa de 8+1.
O Andy Schleck ainda tentou deixar o Contador para trás mas não conseguiu. Agora (como nos últimos quilómetros da subida para o Col de la Madeleine) o trabalho do espanhol está facilitado, pois só tem que responder aos ataques dum adversário. Precisamente por isso, o Schleck também tem a tarefa mais dificultada, pois as atenções e esforços do Contador estarão voltados para ele. No entanto, com a falta de ataques do Contador, depreendo que ele não está tão forte como noutros anos. Nos Pirenéus tudo poderá ser diferente e teremos que esperar para ver como estão as forças do Schleck, do Contador e dos seus principais colegas para a alta montanha: Fuglsang, Dani Navarro e Tiralongo. Poderá passar por eles as estratégias das suas equipas mas para isso é preciso que estejam fortes. Não basta querer.

Hoje a etapa foi para o Sandy Casar. Trabalhou muito e a estrada foi justa.
De resto, o Samu Sánchez voltou a mostrar-se forte na montanha e um forte candidato ao pódio, tal como Gesink, Menchov, Leipheimer. O Sánchez tem estado combativo e pode oferecer espectáculo à corrida, mas espero mais de Gesink, que atacará enquanto tiver forças. Importante é que saiba quando atacar e quando puxar o grupo. São demasiadas as vezes em que se limita a levar o grupo na roda, ajudando quem não deveria.
O Kreuziger não esteve como eu esperava. Vamos aguardar para ver se ainda lhe falta alguma qualidade para este tipo de etapas ou se simplesmente continua inconstante. À parte disso, tem apenas 24 anos e muita qualidade.
Quanto ao Evans, tive pena. É um ciclista batalhador e tentou esconder de toda a gente que tinha o cotovelo partido para que não aumentassem os ataques. Conseguiu esconder os problemas do cotovelo até ao final da etapa mas não foi preciso que começassem os principais ataques para ele ficar para trás. O Giro era a sua última hipótese de vencer uma grande volta. Não a conseguindo aproveitar, muito menos conseguiria no Tour de Andy e Contador. Afinal de contas, alguém duvidava que o Tour era a dois?

domingo, 11 de julho de 2010

Andy Schleck ganhou e Contador salvou a pele

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Tal como no ano passado, a primeira chegada ao alto na Volta a França chegou sem que antes houvesse dificuldade suficiente para que se soubesse quem estava forte e quem não estava. Por isso mesmo, tal como no ano passado na subida para Arcalis, os favoritos fizeram toda a subida na expectativa.
Assim que Lance Armstrong começou a quebrar (ainda longe da última subida), a Astana assumiu na frente do grupo dos favoritos, com o Tiralongo e o Dani Navarro, que se mostrou super. Quem não estava nada super era o Contador mas todos demoraram muito tempo a perceber. O Navarro puxou o que deveria ter puxado e depois continuou na frente do grupo demasiado tempo, quando o Contador já deveria ter atacado para dar continuidade ao grande trabalho dos seus colegas. Felizmente para si, os seus adversários demoraram demasiado tempo a perceber isso. Também demorei a perceber.
Quando faltavam cerca de 2,5 km, escrevi no Twitter isso mesmo, enquanto o Marco Chagas dizia o mesmo. Contador ainda respondeu ao ataque de Kreuziger a 2km da meta, depois ao de Van den Brouck, mas não teve como responder ao Schleck. Felizmente para o espanhol, além de não ter havido ataques mais cedo, o Kreuziger e o Gesink ainda ajudaram a reduzir as perdas.
Andy Schleck ganhou dez segundos e a sua primeira etapa da Volta a França, mas dá-me a sensação de que desperdiçou uma oportunidade de ganhar ainda mais tempo ao seu principal rival. Ganhou sim muita motivação, mas não se pense que todas as etapas vão ser assim. Talvez ele preferisse que amanhã fosse mais uma chegada ao alto, mas é dia de descanso. A prova volta na terça-feira, mas mais chegadas ao alto, só nos Pirenéus, a começar no próximo domingo.
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O Armstrong abdicou da luta e perdeu quase 12 minutos. No final disse que, a partir de agora, era para aproveitar as suas duas últimas semanas de Tour. O Contador optou, uma vez mais, por mentir e arranjar desculpas. Desta vez diz que o Andy Schleck o apanhou um bocado atrás, mas as imagens mostram que era segundo do grupo quando o Andy (em 3º) atacou. Diz ainda que, quando viu o Andy ganhar uns metros, preferiu sentar-se e esperar por quem ia atrás de si. Não era espectável que dissesse que alguém tinha estado mais forte, principalmente tratando-se da mesma pessoa que, no dia dos pavés, disse que tinha feito os últimos 30 km com a roda travada. Acredite quem quiser.
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Terminou o Troféu Joaquim Agostinho com o Cândido Barbosa a vencer. Ganhou o prólogo, uma chegada a subir e um sprint. A Palmeiras tem a melhor equipa portuguesa da actualidade, tem o David Blanco como mais forte candidato à Volta a Portugal e um director desportivo que já mostrou saber montar e comandar a equipa da melhor forma. Acho difícil tirarem-lhe a vitória, mas a prova ainda nem começou.

sábado, 10 de julho de 2010

Bem-vindos ao Carro Vassoura!

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Este é um carro vassoura diferente. Numa corrida, o carro vassoura é um inimigo dos ciclistas, do qual todos querem estar o mais longe possível, mas este blog pegou no nome por outros motivos. O nosso objectivo passa por comentar aquilo que se vai passando na modalidade, não deixando ao abandono o que passa pela estrada (e também fora dela).

Afinal, quem somos nós e o que pretendemos? Somos dois adeptos (Diogo Martins e Rui Quinta) que acompanham ciclismo durante todo o ano, há vários anos. Com este espaço, pretendemos apenas dar as nossas opiniões, não nos preocupando nem pretendendo dar notícias (isso já o fizemos no Ciclismo Digital).

Como escreveremos sempre de forma independente, certamente haverá vezes em que temos opiniões diferentes, mas este é um espaço livre. Também quem quiser comentar o poderá fazer livremente de acordo com a sua opinião, sendo ela favorável ou contrária às de quem aqui escreve.

Mais uma vez, sejam bem-vindos e sintam-se à vontade.

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